domingo, 9 de fevereiro de 2025

Onde é que se vê? É na ProençaTV


Enquanto clubes históricos do nosso futebol definham, mergulhados em crises financeiras brutais, com infraestruturas degradadas, salários em atraso e impedidos de inscrever jogadores, Pedro Proença e a sua entourage decidiram brindar o futebol português com uma nova sede da Liga Portugal. Um edifício faraónico de 18 milhões de euros, erguido às custas de um futebol profissional que, fora dos 3 principais palcos do tugão, sobrevive à míngua, abandonado por quem o deveria proteger. 

Na inauguração do edifício, em timing perfeito para abertura da campanha para as eleições da Federação Portuguesa de Futebol, a Liga Portugal divulgou um vídeo de apresentação do edifício que contou com a participação dos Embaixadores da Liga Portugal, designando-o por...

"O homem sonha, a obra nasce"



O título promete e o vídeo cumpre, desde logo com a abertura onde Pedro Proença começa por alinhar com uma precisão cirúrgica a sua Montblanc, a agenda e o telemóvel. Na geometricalidade desta imbecilidade teatralizada, mais tarde reforçada com um jeitinho nos cartões e no apito do museu da Liga (que deveriam estar virado num angulo de 90 graus para um pack de vouchers e fruta variada), pretende-se mostrar um homem meticuloso, um visionário que vê muito além dos embaixadores que têm o privilégio de se sentar à mesa com tão ilustre figura. 

Entre o ar de espanto encenado dos que veem neste projeto uma utopia e um Nuno Gomes que se sujeitar ao ridículo de fazer uma piada digna dos "Malucos do Riso", surge o ator secundário que acompanhará Proença ao longo de todo o vídeo. Nada mais, nada menos, do que Paulo Futre, o apóstolo do delírio e da chalupice, o homem do libidium fast e do "vai vir charters todas as semanas com trezentas e quatrocentas pessoas. O Sporting vai ter comissões dos charters, dos hoteis, dos restaurantes, dos museus, etc, etc, etc.". Foi este o escolhido para encarnar o papel da voz do bom senso e da razão. É este o homem que pergunta a Proença: "Você não está a sonhar muito alto?" 

A realidade é que o vídeo foi publicado e nenhum clube, jornalista ou personalidade do futebol português se mostrou minimamente incomodado com esta personalização patética de uma obra que não é mais do que uma ode à saloice, na linha do típico empresário português que compra um Mercedes topo de gama, mas que vive de empréstimos à banca, enquanto o seu processo produtivo/comercial continua a ser do século passado. 

Se não se importaram com isso, talvez também não se importem com o seguinte:

Os "Embaixadores"


Para quem não sabe, todos os antigos jogadores que participaram neste vídeo são Embaixadores da Liga Portugal, com os respetivos benefícios que advêm desse estatuto. 

Curiosamente, grande parte dos Embaixadores da Liga Portugal que participaram neste vídeo de apresentação da nova sede da Liga, acabaram por nas semanas seguintes ter vídeos de apoio seus nas redes sociais oficiais da candidatura de Pedro Proença à liderança da Federação Portuguesa de Futebol.

Só que, coincidência das coincidências, nesses vídeos de apoio à candidatura de Pedro Proença à Federação, os Embaixadores estão todos com a mesma roupa que estavam no vídeo de apresentação da nova sede da Liga, e inclusivamente percebe-se que esses vídeos de testemunho foram feitos dentro da sede da nova Liga. 

Podemos todos continuar a assobiar para o lado, mas a realidade é que os vídeos de apoio à candidatura de Proença à Federação foram gravados no dia da gravação do vídeo de apresentação da nova sede da Liga, com recursos técnicos e físicos da Liga, nas instalações da Liga e usando a imagem de Embaixadores da Liga. 

Neste sentido, gostaria de perguntar a Pedro Proença, à direção da Liga e sobretudo aos clubes que compõem a Liga Portugal se acham isto bonito. Se são estes os métodos que querem ver replicados na Federação? Muito provavelmente são. 

De seguida estão montagens que comprovam isso mesmo (Do lado esquerdo print do vídeo de apresentação da Liga enquanto que do lado direito está o vídeo de apoio à candidatura de Proença à FPF).

A Honra e o empréstimo à Associação de Futebol de Lisboa


(Aqui) e (Aqui)

De Embaixadores da Liga Portugal a membros Comissão de Honra da candidatura de Proença à Federação foi um tirinho, como se pode ver nas duas publicações na página de candidatura. Deste lote de Embaixadores, notar ainda que quatro estão envolvidos na campanha de Rui Rodrigues, conhecido como o senhor da carrinha do apito da Sporttv, que concorre à liderança da Associação de Futebol de Lisboa.  

https://www.instagram.com/afl_detodosparatodos

A troika do Apito


Por certo, todos os embaixadores têm futuro assegurado, seja na futura Liga Portugal, que Proença tudo tem feito para entregar de mão beijada a Artur Soares Dias, quer na Associação de Futebol de Lisboa de Rui Rodrigues, que conta com igual apoio e mentoria de Proença. 

Em nenhum outro país do mundo, um ex-árbitro alcançou um cargo de destaque fora da esfera da arbitragem. Em Portugal, preparamo-nos para ter três nas três principais instituições futebolísticas nacionais, com a conivência e apoio declarado de Sporting, Benfica e Porto. De facto, vamos ter um futuro brilhante com a liderança destes atores de filmes tão galardoados como o "Apito Dourado", "A fruta de comer", "Vouchers Dourados" ou "Os emails do apito". 

Quanto à ProençaTV, tudo indica que avançará a todo o gás na execução de produções tão ou mais brilhantes quanto "O homem sonha, a obra nasce", mas agora no sinal aberto do Canal 11. 

Estão prontos, meus queridos?

domingo, 5 de janeiro de 2025

Apito ao poder - Parte II

Ao longo dos últimos meses, muito por força de uma imprensa amestrada e da completa apatia dos "3 grandes", pouco ou nada se tem falado sobre o jogo das cadeiras na cúpula do futebol português. Com a chegada do novo ano, a imprensa entretêm os adeptos com as possíveis dispensas e contratações de novos jogadores para as suas equipas, enquanto o mercado dos dirigentes continua...a rolar ao som do apito. Pedro Proença avança para FPF, deixando o assento quente para Artur Soares Dias na Liga, enquanto que na AFL, Rui Rodrigues, o senhor da camioneta do apito da Sporttv tenta seguir as pisadas dos seus pares do apito. 

Desde o primeiro post que fiz sobre este assunto (aqui), este mercado teve algumas movimentações interessantes, com destaque para a situação de Nuno Almeida, que me faz recordar uma velha máxima do antigo Primeiro-Ministro, Luís Filipe Vieira, que dizia publicamente que os “lugares na Liga e FPF são mais importantes do que os bons jogadores”. 

Ferrari Vermelho vai à box trocar de pneus 

https://www.fpf.pt/pt/News/Todas-as-not%C3%ADcias/Not%C3%ADcia/news/46483
Link (aqui)

No dia 4 de outubro de 2024, com a época desportiva a decorrer, Nuno Almeida anunciou o final da sua carreira como árbitro de futebol. Na comunicação realizada pela FPF, o "Ferrari Vermelho", como é conhecido, considerou: "Sinto-me em condições para continuar ou não teria iniciado a época, mas acho que posso utilizar a minha experiência em outras áreas da arbitragem".

No espaço de dois meses, este foi o segundo árbitro a abandonar de forma abrupta a carreira com a época desportiva em curso, depois de Artur Soares Dias. Como diria alguém, "o comboio não passa duas vezes", e a oportunidade de um cargo de prestígio, poder e muito bem remunerado garantido para pelo menos uma década, não podia ser desperdiçada. 

Curiosamente, a justificação para o abandono de ambos foi semelhante, assim como a disponibilidade do Jornal Record, o famoso "media partner" da Liga Portugal, para entrevistar Nuno Almeida. 

Sobre a encomenda propriamente dita, os dois objetivos principais foram transmitidos. Em primeiro lugar, posicionar-se para um cargo numa estrutura liderada pelo "incansável" Pedro Proença (print anterior). Em segundo lugar, tentar libertar-se do facto de ter sido um dos árbitros que mais utilizou os vouchers do Benfica. 

O Rei do voucher


Diz o "sócio" que não sabia dos vouchers no Kit Eusébio, mas a realidade é que foi o maior utilizador dos vouchers do Benfica, com umas inacreditáveis sete refeições, que custaram aos cofres da luz cerca de 1600€. 

Link completa divulgada na imprensa retirada do processo (aqui)

Na tentativa de limpar a face, Nuno Almeida diz que "não fazia a mínima ideia" que havia um voucher na caixa, que ficou "apenas com a primeira caixa" e que ofereceu as restantes "aos amigos mais próximos de Monte Gordo", concluindo que "tive o cuidado de lhes perguntar e eles nem sabiam do que eu estava a falar".

Desde o dia da retirada da arbitragem até ao dia desta entrevista ao Jornal Record, Nuno Almeida, coadjuvado pelos propagandistas de Pedro Proença teve sessenta e seis dias para encontrar uma justificação para o facto de ser o Rei do Voucher. O melhor que conseguiu foi fazer-se passar, a si e aos seus amigos, pelos lerdinhos de Monte Gordo. Uns tipos muito ingénuos que abrem um presente e que não conseguem ver um voucher que lhes garante uma tainada monumental. Ninguém os viu nem sabe do que se trata, por isso temos de acreditar que o raio dos vouchers só podiam ser saltitantes - como as papoilas - e que, sem ninguém lhes tocar, foram até ao Museu da Cerveja para serem descontados. É de facto extraordinário.  

Isto vindo do artista que na mesma entrevista diz não fazer "a mínima ideia" de onde surgiu a alcunha de Ferrari Vermelho. Nós sabemos, Nuno. Nós sabemos muito bem.  

Ferrari em excesso de velocidade


Link da notícia (aqui)

Eu sei que há malta muito esquecida, mas eu ainda sou do tempo em que José Fontelas Gomes, atual Presidente do Conselho de Arbitragem da FPF e na altura Presidente da APAF, defendia os árbitros que usaram os vouchers com a justificação de "O código de ética da UEFA estabelece que o valor máximo das lembranças não pode ultrapassar os 200 francos suíços, o que dá qualquer coisa como 183 euros". 

Queira o caro leitor recuar um pouco neste texto e verificar que das sete jantaradas do Ferrari Vermelho, três são bem acima desse limite, sendo que é justo destacar aquela que deve ter sido uma jantarada memorável e que custou perto de 600€. Coisa pouca.

Ferrari Vermelho na poll position


Link da notícia (aqui)

Na passada sexta-feira, em comunicado, a candidatura de Pedro Proença fez saber que além de querer triplicar o número de árbitros, já tem nomes para o Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, com Luciano Gonçalves, atual presidente da APAF, a ser o candidato à Presidência, enquanto que, espante-se, Nuno Almeida será o vice-Presidente com a responsabilidade pela seção profissional. Serão estes os homens de mão de Pedro Proença para meterem a arbitragem na ordem. 

Ainda ontem, vimos Di Maria fazer isto ao árbitro João Godinho sem lhe ter sido dada ordem de expulsão.  Nuno Almeida foi um árbitro medíocre e nunca chegou sequer a internacional. Apesar disso, e ainda não tendo tomado posso como líder pelo apito profissional em Portugal, mostra já que é uma inspiração para o atual lote de apitadores nacionais, como podem ver de seguida. 

Liderança implacável: Recordação do dia em que Luisão encostou a cabeça a Nuno Almeida e... nada aconteceu.

De Alcanadas para o Mundo - O Rei dos Bilhetes e da ética 


Se Nuno Almeida é o Rei dos Vouchers e da disciplina, Luciano Gonçalves é o Rei dos Bilhetes e da ética. 

Recordemos o belíssimo episódio em que Luciano Gonçalves pediu 50 bilhetes ao Benfica para os amigos de Alcanadas (aqui) ou o extraordinário caso de 2004, onde mostrava já ser um artista multifacetado. Na ocasião, conseguia ser árbitro de futebol, jogador e dirigente. Uma versatilidade que lhe permitiu apitar um jogo entre duas equipas da mesma divisão que o clube no qual era jogador e dirigente, o Centro Recreativo de Alcanadas. 


De facto, as gentes de Monte Gordo e de Alcanadas têm a sorte de ter amigos tão dedicados e atenciosos como aqueles que serão, previsivelmente, os novos líderes do apito em Portugal. Já diz o provérbio, "Amigo diligente, é melhor do que parente". 


segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Apito ao poder

 

Na sua última conferência de imprensa como treinador do Sporting antes de rumar ao Manchester United, Rúben Amorim deixou um aviso que foi olimpicamente ignorado pelo futebol português.

“Os orçamentos das equipas pequenas e das equipas grandes começam a fazer uma grande diferença no campeonato. Se não nos desenvolvermos todos, vamos ficar ainda piores.”

Senti a declaração como um desabafo neste momento de partida para o melhor campeonato do mundo, mas, sobretudo, como um sinal de alerta para a abertura de uma discussão muito séria sobre o futuro do futebol em Portugal.

Haverá certamente muitos responsáveis pela situação a que chegámos, mas há só há uma figura com real abrangência, poder e responsabilidade de defender a sustentabilidade dos todos os clubes profissionais e a competitividade e integridade daquela que é a competição mais importante do país. Falo, obviamente, do Presidente da Liga de Clubes, Pedro Proença.

A realidade é que levamos já mais de 9 anos de Pedro Proença à frente da Liga e o fosso entre os três grandes e os restantes competidores é cada vez maior. Ainda sou do tempo em que se dizia que "os campeonatos decidem-se nos jogos com os pequenos". Hoje, essa parece uma realidade cada vez mais distante, com cada vez menos equipas pequenas a baterem o pé aos grandes. Veja-se por exemplo o caso de nos últimos 3 campeonatos onde por duas ocasiões os vencedores chegaram à barreira dos 90 pontos.

A título de exemplo, veja-se os pontos alcançados na Liga pelo FC Porto, campeão europeu em 2004 com José Mourinho, ou pelo Sporting da dobradinha de Mário Jardel, e compare-se em que lugar na classificação ficariam essas equipas, numa das últimas nove Ligas Proença.  

Pedro Proença e seus pares não só não combatem o fosso entre grandes e pequenos, como o tentam tornar ainda mais fundo. Veja-se, por exemplo, o formato inacreditável que a Liga montou para a Taça da Liga, colocando os 4 primeiros classificados da Liga da época anterior a jogarem em casa contra o 5.º, 6º lugares e os 2 clubes que subiram de divisão. Que outro resultado se espera que não o que voltou a ocorrer com uma final-4 com Sporting, Porto, Benfica e Braga?

Proencinha, Proenchinha...

São 9 anos de muita propaganda e onde a única obra feita – ainda assim, por concluir - será mesmo a obra do betão, com a concretização de um projeto megalómano de uma nova sede para a Liga. Espaço que terá uns tão impressionantes, como desnecessários, sete andares e custará a módica quantia de 18 milhões de euros. Obra que Proença não deverá inaugurar, já que todo o país desportivo já percebeu que está de malas e bagagens aviadas para a Cidade do Futebol.

https://www.ligaportugal.pt/pt/epocas/20242025/noticias/institucional/direcao-da-liga-portugal-apoia-solucao-de-pedro-proenca-para-a-fpf/#

Se o futebol português tivesse a mesma criatividade e competência para resolver os seus problemas como os seus protagonistas têm para as jogadas de bastidores, ninguém nos parava. Note-se, por exemplo, que Pedro Proença, ainda nem sequer assumiu publicamente a sua candidatura, mas conta já com o apoio da sua própria direção da Liga de clubes, o que é uma coisa absolutamente extraordinária. A mesma direção que se comprometeu com Pedro Proença a fechar o dossier mais importante da história do futebol português: a centralização dos direitos TV.

Mas não desesperem, que o Proencinha tem alguém de confiança e um "talento que marca o mundo" para liderar esse processo ao leme da Liga. 

Soares Dias - "Um talento que marca o mundo"

https://www.ligaportugal.pt/pt/epocas/20242025/noticias/geral/awards/artur-soares-dias-distinguido-com-o-premio-talento-que-marca-o-mundo

Para a Liga, o lobby do apito apresenta-nos Artur Soares Dias, que fruto das circunstâncias, antecipou de forma abrupta a sua saída da arbitragem, prevista para o final da atual época desportiva. 

A 8 de agosto, a um dia do início do campeonato do qual fazia parte do grupo principal de árbitros e dias depois da "piscinada" com Pinto da Costa, anuncia oficialmente ao conselho de arbitragem da FPF e à UEFA a sua retirada. Apenas uma semana depois é que essa decisão foi tornada pública e pelo próprio, de forma claramente profissional, com uma série de comunicados de imprensa e de entrevistas nos mais variados meios. O comboio de Proença para a Federação já estava e andamento e Soares Dias teve mesmo de antecipar a entrada para chegar ao apeadeiro da Liga Portugal. 

Chegados aqui, e já que teremos Proença na Federação, Soares Dias na Liga, porque não parir-se mais um ex-apitador, mesmo que seja daqueles bem medíocres e coloca-lo na Associação de Futebol de Lisboa?

Onde se vê? É na Sporttv...

https://www.abola.pt/futebol/noticias/-2024100111370342719?srsltid=AfmBOor4il_0A5o23scxxpzPqN3GRiP8s3ucroUCJgiZcsst_U0bLX4n

Já diz o povo, que "não há duas, sem três". De árbitro medíocre com uma passagem relâmpago pelo quadro principal do apitadeiro nacional, através de um expediente de secretaria, a expert do apito de carrinha na Sporttv, foi um tirinho. Rui Rodrigues está agora lançado aquela que é a maior Associação de Futebol do país, em termos de praticantes. 

"Uma maioria, um Governo e um Presidente"

Tive curiosidade e pesquisei por ex-árbitros ou pessoas ligadas ao mundo da arbitragem que tenham chegado à liderança de federações ou ligas de futebol em todo o mundo. O resultado foi simples: nem um único nome para amostra. 

Cá no burgo, preparamo-nos para a originalidade, de com a conivência dos clubes e das associações de futebol, estarmos prestes a subjugarmo-nos à vontade do apito nas nossas três maiores instituições futebolísticas.

Mas falamos de Portugal, o país de históricos pergaminhos, onde os filhos paridos do "Apito Dourado", dos "vouchers", da "agência Cosmos", dos "Padres e das missas", dos "sacos vermelhos e azuis" ou do "café com leite", entre muitos outros, conseguem transformar cadastro em curriculum.

Além de donos do apito, passam a ser também os donos da bola. Resta saber até quando terão adeptos. 


domingo, 8 de outubro de 2023

Reprovar

Meus caros,

Após longa ausência, entendi que pela importância do momento deveria voltar às publicações, tentando contribuir para o esclarecimento dos Sportinguistas e apelando para que possam votar de forma informada e consciente na Assembleia Geral.

Hoje, o Pavilhão João Rocha recebe uma das mais importantes reuniões magnas da história do Sporting Clube de Portugal, estando em cima da mesa uma alteração estatutária que é facilmente vendida como sendo muitíssimo apelativa para os Sportinguistas, mas que a ser aprovada dá plenos poderes a estes ou a outros órgãos sociais para moldarem um novo Sporting. Refiro-me em concreto ao ponto 3 da ordem de trabalhos relacionado com a inclusão de um novo artigo nos estatutos do clube que consagra a "Votação eletrónica à distância".

Uma matéria complexa, que merece uma profunda reflexão. Aqui fica a minha:

O argumento pelo "Sim" e a falta de debate

No enquadramento da proposta, os argumentos utilizados pelo Conselho Diretivo são os da "participação universal de todos os Sócios nas decisões do Clube", "permitindo aos Sócios espalhados pelo país e pelo mundo possam ter voz na vida do Clube". 

Não há dúvida que apresentados desta forma simplista são argumentos fortes e que sensibilizam os Sócios do clube para votarem favoravelmente, especialmente para uma esmagadora maioria dos Sócios que não se preocuparam nem pensaram em concreto nas implicações de uma alteração tão importante para o clube. E aqui não é uma crítica. Cada associado vive o Sporting da forma que entende e já muito massacrados têm sido os Sportinguistas com estatutos, regulamentos e afins. 

Precisamente por esse histórico e pela extraordinária importância desta matéria, diria o bom senso, e sobretudo a defesa dos princípios da transparência, do escrutínio e da unidade do clube, que os órgãos sociais do clube promovessem um amplo debate entre os Sportinguistas, dando tempo para que todos se pudessem informar devidamente, permitindo até fortalecer uma decisão desta magnitude, fosse ela qual fosse. 

Não só não foi isso que aconteceu, como não existiu um debate sério sobre o assunto, limitando-se o clube a propagandear a ideia em todos os seus canais de comunicação e inclusivamente na imprensa amiga, como ficou ontem bem patente na encomenda de capa no Jornal Record. Reparem que não existiu uma apresentação pública, uma sessão de esclarecimento aberta aos sócios ou sequer uma entrevista ao Presidente do Conselho Diretivo onde este pudesse explicar e sobretudo, ser confrontado com as muitas dúvidas que o processo deste género deveria levantar. 

Este vazio de esclarecimentos é ainda mais relevante quando vivemos tempos em que as Assembleias Gerais do clube se transformaram em Assembleias Gerais "fantasma", que mais não são que um concurso de popularidade à equipa de futebol masculino profissional. E este é um ponto crucial de análise que não pode ficar sem comentário.  

As Assembleias Gerais "fantasma" 

Por iniciativa de Rogério Alves, Presidente da anterior Mesa da Assembleia Geral e com continuidade no mandato atual, todas as Assembleias Gerais do clube foram transformadas em Assembleias Gerais "fantasma", já que passam a funcionar numa lógica mais referendária do que outra coisa. Com o atual sistema, os sócios não necessitam participar na discussão, podendo apenas passar por Alvalade, entrar, votar e seguirem com a sua vida. Haverá por certo quem ache isto muito cómodo, mas para mim é um atentado ao associativismo, como fica expresso no Artigo 20.º dos nossos estatutos, que define a participação, a apresentação de propostas e o intervir na discussão ainda antes da votação, como acontece em todas as assembleias gerais, sejam elas de um condomínio ou das maiores empresas do país.  

Com marcação para as 9h30, mas com falta de quórum na primeira chamada, a Assembleia Geral de hoje principiará às 10h00 com a abertura das urnas para votação. Nesses primeiros momentos da manhã será realizada uma sessão de apresentação por parte dos órgãos sociais, um ou outro sócio (cada vez em menor número) farão as suas intervenções para um pavilhão completamente despido e dar-se-á por finda a discussão, mantendo-se às urnas abertas até às 20h. Depois disso, e perante um pavilhão vazio são declarados os resultados literalmente para o "boneco". Uma imbecilidade e uma indignidade que vai contra todos os princípios do associativismo, convivência democrática e da união dos associados.

E dou um exemplo concreto relacionado com a AG de hoje, diferente da discussão da alteração dos estatutos. Como podem os Sócios do Sporting votar em consciência o ponto n.º 4, referente à venda de um imóvel que o clube possui em Benavente sem ouvirem as justificações do Conselho Diretivo e a opinião de outros Sócios com conhecimento de causa sobre esta matéria em concreto? 

Mesas de voto descentralizadas 

Como é evidente, sou completamente contra a adoção do voto eletrónico à distância para este tipo de Assembleia "fantasma". 

Contudo, estaria disposto a aceitar um eventual voto eletrónico à distância, suportado por voto em papel, se o mesmo fosse realizado num núcleo ou filial do Sporting com acesso de áudio e vídeo ao debate a decorrer no João Rocha. E dou um exemplo concreto da sua aplicação, recuando até fevereiro de 2018. Nessa altura o Sporting realizou a Assembleia Geral no Pavilhão João Rocha em paralelo com o Multidesportivo, por não caberem todos os associados no Pavilhão. Uma reunião magna que recorreu a um sistema fechado de vídeo, que inclusivamente permitiu aos Sócios que estavam no Multiusos tomarem da palavra e serem ouvidos e vistos no Pavilhão João Rocha. 

Um procedimento que está consagrado nos estatutos e que poderia perfeitamente ser melhorado e implementado nas zonas geográficas com maior aglomeração de Sócios do clube, tal como é expresso nos estatutos. Mas há ainda outro método alternativo de voto sem ser presencial.

O voto por correspondência

Através do voto por correspondência, todos os sócios que residam foram da área metropolitana de Lisboa, ou os Sócios que o solicitem à Mesa da Assembleia Geral, recebem em suas casas os boletins de voto para que possam exercer o seu direito de escolha dos órgãos sociais do clube. Mediante reconhecimento de assinatura, podem enviar os seus votos de forma antecipada com todas as condições de confidencialidade e segredo de voto, já que os votos vão enviados lacrados e colocados nas urnas correspondentes. 

Admito que é um processo que tem algumas limitações, nomeadamente no que diz respeito ao envio antecipado dos votos, já que obriga o Sócio a decidir o seu sentido de voto alguns dias antes do final da campanha eleitoral, pois só assim será possível garantir que o seu voto chega aos serviços a tempo de ser contabilizado. 

Importa ainda dizer que se trata de um procedimento que conta até com apoio de núcleos e filiais, que se disponibilizam a reconhecer a assinatura de forma gratuita. Um exemplo que conheço é o caso do Solar do Norte, onde o reconhecimento das assinaturas é gratuito para sócios do Solar. Parece-me ser um processo perfeitamente exequível para os Sócios que vivem em território nacional. Já para os sócios que vivem no estrangeiro, aí sim, admito que é muito mais complexo e em muitos casos não é exequível o voto por correspondência. 

Posto isto, eu diria que temos um problema grande em relação ao voto por correspondência para Sócios que vivem no estrangeiro, e que existe muita margem para se melhorar o voto por correspondência em território nacional.

O voto eletrónico... "à distância"

Antes de falar sobre o novo artigo proposto pelo Conselho Diretivo, importa clarificar que o Sporting já tem voto eletrónico, uma que vez que quando votamos, votamos eletronicamente, mas com a impressão do voto colocando-o depois em urna, que é o que vale para a contagem oficial dos votos e para as recontagens em caso de necessidade. 

Mas vamos ao artigo proposto:


O que nós temos aqui é uma proposta de alteração estatutária para que os sócios possam exercer o seu direito de voto nas AG´s eleitorais e AG´s comuns (ordinárias e extraordinárias) através de voto eletrónico à distância, seja no dia da reunião magna, seja nos dias anteriores, conforme for deliberado pela Mesa da Assembleia Geral. O que é outra genialidade. No limite 

O "à distância", em complemento com um enquadramento da proposta em que é dito que a ideia passa por "permitir aos Sócios espalhados pelo país e pelo mundo possam ter voz na vida do Clube" é uma equação simples de resolver e que demonstra que não há qualquer tipo de comprovativo em papel, ficando os votos a serem contabilizados exclusivamente de forma eletrónica, já não haverá uma urna em todos os locais do mundo onde existem Sportinguistas. E isto devia desde logo fazer soar todos os sinais de alerta nos Sportinguistas, já que surge a questão: 

Confiamos no sistema?

Num clube que anda há anos para fechar uma aplicação para os seus Sócios, com um site da pré-história, com uma loja verde constantemente a dar problemas, vamos confiar que o sistema de votação à distância nunca antes implementado num clube desportivo em Portugal não terá qualquer tipo de problema? O sistema é infalível? Não vamos ter uma quebra no sistema a meio de uma votação, o sistema é impenetrável por terceiros? Se surgirem dúvidas, como é que se prova a validade da votação se não há votos impressos, nem é possível fazermos uma recontagem. 

Estão os Sócios do Sporting disponíveis a confiar cegamente a vida do nosso clube num sistema de votação que não tem qualquer suporte em papel que nos permita tirar dúvidas? Eu não estou. 

Mas vamos até admitir que o sistema não tem falhas, o que nos leva a uma camada adicional de (des)confiança. Para isso, atentem no ponto 2 do novo artigo 44.º que nos está a ser proposto. 

"A entidade independente ao Clube e os senhores auditores"

Portanto, com a norma descrita no ponto 2 deste novo artigo, os resultados de TODAS as Assembleias Gerais do Sporting (eleitorais ou comuns), passam a ser ditadas pelo resultado que aparecer no computador da "tal entidade independente ao Clube", que curiosamente... será escolhida, contratada e paga pelo Conselho Diretivo do Sporting, mas que depois terá a salvaguarda extraordinária de ser auditada de fio a pavio por... uma auditora escolhida, contratada e paga pelo Conselho Diretivo do Sporting. Sinceramente, isto faz-vos sentido?

E deixem-me salientar a forma leviana e propositada como foi redigido este artigo com um extraordinário "independente ao clube". Isto fez-me logo lembrar aquele senhor muito independente do clube que até nem era português e que comprou os terrenos do antigo estádio de Alvalade muito abaixo do valor de mercado, como ficou provado na Auditoria apresentada em sede de Assembleia Geral. Por coincidência, mais tarde os Sportinguistas vieram a saber que esse senhor holandês era compadre de Godinho Lopes, que à data da venda dos terrenos era o vice-presidente com a responsabilidade do património. É a este tipo de "independência do clube" que queremos abrir a porta? 

Os Sócios do Sporting até podem confiar cegamente nestes órgãos sociais, mas os estatutos do Sporting são para ser aplicados não só por estes como por todos os órgãos sociais futuros do clube. Estamos pois perante um caminho sem retorno e que pode ser utilizado à vontade do freguês. Mas há mais.

Show me the money

Tratando-se de atos eleitorais e de assembleias gerais do clube, é importante realçar os custos desta "brincadeira" do sistema de votos eletrónicos à distância irá onerar o clube e não a SAD. E aqui eu pergunto: um clube que nos últimos anos tem inclusivamente encerrado modalidades e secções para poupar uns trocados tem agora folga orçamental para gastar uns milhares de euros a pagar a empresas tecnológicas e a auditoras?  

E estas empresas, por exemplo, num resultado de um ato eleitoral controlado apenas e só por elas, sem qualquer tipo de escrutínio exterior, não se sentirão tentadas a assegurarem a vitória de um eventual recandidato à Presidência do Sporting, que foi quem as contratou, quem lhes paga e quem terá o poder de renovar contratos de muitos milhares de euros?  

E se...existir uma proposta de venda da maioria do capital da SAD?

Se vamos aprovar esta alteração estatutária é bom que olhemos para os casos extremos como o que vou avançar como hipótese meramente académica. Faço-o no limite para que todos consigam perceber as implicações da decisão que vamos tomar na AG de hoje. 

Imaginem, por exemplo, que surge uma proposta da venda da maioria do capital que o clube tem na SAD. Nesse caso a decisão caberá sempre aos Sócios do clube que a votarão em sede de Assembleia Geral. Ora, uma proposta deste género implicaria sempre um investimento de centenas de milhões de euros, numa sociedade que nos últimos anos faturou mais de mil milhões de euros (só nos últimos dois anos foram mais de 400 milhões). Ora, com tanto milhão ao barulho e tantos interesses em cima da mesa que teríamos numa hipotética situação deste género, estamos mesmo todos confortáveis que os resultados dados num computador sem hipótese de verificação seriam fidedignos? 

Para fechar

Muito mais haveria a dizer sobre os riscos associados à confidencialidade do voto, a possibilidade de compra de votos, a existência de grupos de pressão para votações organizadas no seio de claques ou outros grupos, etc, mas o texto já vai longo. 

Para fechar, dizer que registei o facto do Conselho Diretivo ter escolhido o jogo de hoje como "Jogo dos Núcleos", assim como o anúncio cirurgicamente realizado no dia de ontem da atribuição de um bónus de 1,6 milhões de euros aos funcionários do clube, desejando que núcleos, funcionários e demais Sócios Sportinguistas reprovem esta alteração estatutária, proporcionando ao clube nova oportunidade para com responsabilidade e uma ampla discussão se encontrem soluções que defendam verdadeiramente o Sporting e os seus Sócios. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Vamos a votos


A pouco mais de quinze dias das eleições do Sporting, pouco se tem falado do sufrágio que decidirá o futuro do clube para os próximos quatro anos. A perceção do país desportivo e da generalidade dos sportinguistas, onde me incluo, é que Frederico Varandas vencerá com larga margem estas eleições. Mas isso não nos deve impedir de discutirmos o passado, o presente e o futuro que queremos para o nosso clube. Um debate que não tem sido realidade no universo leonino e que é crucial realizar. Neste sentido, deixo as informações divulgadas pelas três listas para que os sportinguistas possam conhecer melhor as listas e os programas eleitorais. 

Lista A - Frederico Varandas


Site candidatura: Não tem. 
Redes Sociais: Não tem.
Programa eleitoral: https://scpconteudos.pt/sites/default/files/fvarandas_programaeleitoral_2022.pdf

Lista B - Ricardo Oliveira



Site candidatura: 
https://www.futurocomgarra.pt/ 
Redes Sociais: 
https://www.instagram.com/futurocomgarra/ 
https://www.facebook.com/FuturoComGarra/ 
https://twitter.com/FuturoComGarra
https://www.youtube.com/channel/UCDUmOuIrju0TKfJMjIKh0zw
Programa eleitoral: 
https://www.futurocomgarra.pt/_files/ugd/f15fb0_2ae89950a1a044b281fd6aca0af5bc39.pdf


Lista C - Nuno Sousa



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Primeiras notas


- Estamos em 2022 e os candidatos à Presidência do Sporting CP continuam a ter pouquíssimo espaço para as mulheres nas suas listas. Neste ato eleitoral, temos duas candidatas por cada uma das listas, com a agravante de no caso de Frederico Varandas apenas uma ser candidata efetiva. Incompreensível.  

- A lista de Frederico Varandas sofreu uma enorme revolução quando comparada com os candidatos eleitos em 2018, a começar com os candidatos à Presidência da MAG e do CFeD que não continuam. Também para o Conselho Diretivo são muitas as mudanças. Dos 11 membros efetivos eleitos em 2018, restam apenas 6 elementos. 

- Nesta primeira fase, salientar a boa organização das candidaturas de Ricardo Oliveira e de Nuno Sousa, que têm feito o seu percurso com dignidade e profissionalismo. Não existiram problemas no processo de candidatura, têm as suas plataformas digitais a funcionar com qualidade e têm estado na junto dos sportinguistas. No caso de Ricardo Oliveira, foram já realizadas duas cerimónias. Uma primeira sessão de formalização de candidatura e ontem a apresentação pública das listas. Por parte de Nuno Sousa será hoje realizada a sessão de apresentação pública no Espaço Sete-Rios. 

- Pelo contrário, a lista de Frederico Varandas tem, até este momento, desvalorizado por completo este ato eleitoral e a sua importância para o clube e para os sócios. Varandas não fez qualquer apresentação pública da sua candidatura, não fez qualquer apresentação pública das suas listas, não tem site de campanha, não tem sequer redes sociais de campanha e não tem ações de campanha junto dos sportinguistas.

- Relativamente a entrevistas, o podcast Sporting160 convidou os 3 candidatos para entrevistas, sendo que até ao momento, apenas Ricardo Oliveira e Nuno Sousa aceitaram o convite. A entrevista de Ricardo Oliveira decorrerá hoje, pelas 21h30, enquanto que e a entrevista de Nuno Sousa decorrerá no próximo dia 23 pelas 21h30.

- Face a esta falta de vontade de Frederico Varandas em falar e mostrar aos sportinguistas o seu programa eleitoral, reforço a minha preocupação sobre o debate interno que é urgente fazer-se. Do ponto de vista dos debates, corre a ideia que apenas será realizado um único debate com os 3 candidatos. Aceitaria algo deste género se concorressem apenas duas listas, já que as diferenças poderiam ficar expressas num debate de duas horas. Havendo três listas é necessário que além de um grande debate com os três candidatos, se realizem debates mais curtos a dois. Espero que haja decência e bom senso por parte dos atuais órgãos sociais, permitindo o esclarecimento dos sportinguistas. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Estocada final


Entramos no derby de hoje com uma vantagem de seis pontos relativamente ao Benfica, o que significa que no melhor cenário os encarnados sairão do José Alvalade com um atraso de nove pontos. Se isso acontecer, fico com a profunda convicção que o Benfica estará fora das contas pelo título. 

É esse o cenário que os Sportinguistas querem ver concretizado. Este é o único resultado que nos interessa e é o resultado pelo qual temos de lutar do primeiro ao único minuto, dando tudo de nós. A vantagem de seis pontos permite-nos ter a sublime oportunidade de darmos a estocada final na equipa que era demasiado grande para o nosso campeonato e que estava destinada a voar alto na Champions League, ao mesmo tempo que nos dá a necessária margem para continuarmos na luta se não conseguirmos vencer. 

A margem de erro proporcionada pelo avanço pontual com que entramos tem de ser utilizada como combustível para a sermos uma equipa agressiva e dominadora. Conseguirmos eliminar da luta pelo título um rival direto ainda antes do fecho da primeira volta tem de servir de inspiração para assumirmos o jogo e conquistarmos os três pontos. 

É por isso dia de ir para cima deles com tudo, como se as nossas vidas dependessem disso. Se queremos ser campeões, é hoje o dia de mostrarmos toda a nossa dedicação, devoção e compromisso. Esta é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada e é a oportunidade ideal para embalarmos para o título, tal como embalamos em 1999/2000 naquele célebre clássico com o FC Porto. 

Vamos a isso, leões! 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O "caso" Miguel Albuquerque

Na passada quinta-feira, o Correio da Manhã trouxe à estampa um enorme destaque dedicado a Miguel Albuquerque, diretor-geral das modalidades do Sporting. Desde esse dia até hoje, foram várias as movimentações, que agora, com algum distanciamento temporal, passo a analisar. Primeiro vamos aos "factos" em cima da mesa.

1 - A versão do Correio da Manhã



Vejamos agora o conteúdo da notícia.

Relativamente ao processo em si, o Correio da Manhã diz que existiram diversas agressões verbais, através de mensagens, assim como uma situação em que Miguel Albuquerque terá embatido no carro da ex-mulher, no sentido de parar o veículo. O tribunal "condenou Miguel Albuquerque a 2 anos e 2 meses de prisão com pena suspensa". Esta deliberação foi tomada em "junho do ano passado" e Miguel Albuquerque não recorreu.

Contactado pelo Correio da Manhã, o Sporting confirma que a ex-mulher também exerce funções no Sporting e que o clube "não teve conhecimento de que tenha sido proferida qualquer sentença de condenação com esse conteúdo e com esse arguido". 

2 - A reação do Sporting

Pela hora do almoço dessa quinta-feira, o Sporting emitiu o seguinte comunicado: 


3 - O dia seguinte


No dia seguinte à notícia inicial e ao comunicado do Sporting o Correio da Manhã voltou a escrever sobre o mesmo assunto. 


Diz o Correio da Manhã que "Miguel Albuquerque nunca terá informado a entidade patronal". Diz também que deverá ser instaurado um processo disciplinar mas que "continua a receber salário (3500 euros mensais)".

4 - O que faltou dizer



O que faltou dizer, por falta de interesse do Correio da Manhã, teve de ser dito pela ex-mulher de Miguel Albuquerque, que teve que recorrer à figura do "direito de resposta", consagrado na lei, para dar esclarecimentos sobre o assunto.

Ficamos a saber que a "ex-mulher" reconciliou-se e retomou a relação com Miguel Albuquerque ainda durante o processo. Mais informou que não lhe foi possível retirar a queixa porque se tratava de um crime público. Aproveitou ainda a oportunidade para desmentir que ela ou a filha tenha recebido qualquer tipo de assistência médica ou tratamento hospitalar. 

5 - O que Correio da Manhã fez no "Verão passado"


Se recuarmos ao dia 7 de maio de 2019 e olharmos para a capa do Correio da Manhã, verificamos o seguinte: 


Vejamos também a notícia na íntegra para não restarem dúvidas.


Segundo a notícia do Correio da Manhã de dia 7 de maio de 2019, e assinada por Tânia Laranjo, o julgamento de Miguel Albuquerque iniciou-se nesse preciso dia. Diz ainda o CM que o "caso surpreendeu altos dirigentes do Sporting". 

Portanto, de 7 de maio de 2019 a 22 de outubro de 2020, o Correio da Manhã não escreveu uma linha sobre a conclusão deste caso. 

Temos então até aqui toda os factos públicos relacionados com este caso. Passo agora a dar a minha opinião sobre todos pontos deste "caso".

Qual é o interesse do Correio da Manhã no assunto?


Quantos portugueses conhecem Miguel Albuquerque? Será que esta figura e este assunto tem relevância mediática para ser o principal destaque de capa do jornal com maior tiragem a nível nacional, numa fase em que o país tem tantos e graves problemas para noticiar?

Se as respostas a estas perguntas já nos fazem duvidar do súbito interesse do Correio da Manhã pelo tema, pior ficamos quando nos apercebemos que estamos a ler uma "notícia" de algo que ocorreu há um ano e meio. 

Os crimes


Não há desculpas que atenuem o crime que Miguel Albuquerque cometeu. Este é um erro com o qual terá de viver o resto da sua vida e pelo qual foi punido pela justiça, com dois anos e dois meses de pena suspensa. Contudo, importa salientar que Miguel Albuquerque não foi condenado por violência física, mas sim verbal. Igualmente lamentável e profundamente condenável, mas importa salientar a diferença.

Entretanto, e apesar do divórcio, a situação foi ultrapassada e o casal reconciliou-se. Uma reconciliação que ocorreu ainda muito antes do processo ser julgado. Para que se perceba ainda melhor a situação, importa referir que o processo só não foi retirado pela vítima porque se tratava de um crime público. Entenderam ainda, enquanto casal que seria hora de colocar um ponto final no assunto e Miguel Albuquerque não recorreu da sua pena. E por certo, como habitualmente ocorre nestas matérias, a pena acabaria por ser reduzida ou até mesmo retirada. 

Uma encomenda 


A "investigação" do Correio da Manhã sobre esta matéria foi tão aprofundada, mas tão aprofundada que nem sequer conseguiram dizer que o casal reconciliou-se cerca de um ano antes do caso ir a julgamento (Maio de 2019). Como se isto fosse um pormenor insignificante, não é senhores do Correio da Manhã?

Meus amigos, tudo isto era público e conhecido por toda a gente. Recordo, por exemplo, o caso das agressões a que a comitiva do Sporting foi alvo no Dragão Caixa em Março de 2019, dois meses antes do julgamento. Se bem se recordam, Miguel Albuquerque estava acompanhado... precisamente pela sua ex-mulher. 

Ou seja, depois desse problema conjugal, Miguel Albuquerque e a sua ex-mulher reconciliaram-se e vivem juntos com a filha em comum há mais de dois anos e meio. Eu vou repetir devagarinho a ver se as pessoas percebem. Há dois anos e meio que esta família está unida e ultrapassou os problemas do passado. Virem agora, tanto tempo depois, recuperar esta história e dar amplitude de capa a este assunto demonstra bem os escrúpulos de quem meteu esta encomenda no Correio da Manhã, sobretudo quando pensamos numa família com uma filha adolescente. 

O que eu faria?


Por princípio, sou da opinião que o Sporting não deve ter funcionários com antecedentes criminais e muito menos deve ter funcionários a cometerem crimes. Mas cada caso é um caso, e deve ser analisado à luz de várias vertentes, nomeadamente: as circunstâncias, o comportamento, o histórico no clube e os superiores interesses do Sporting. Por exemplo, se um jogador de futebol profissional cometer um crime, vamos despedi-lo ou vamos tentar encontrar uma solução?

Muito sinceramente, em face dos factos analisados anteriormente, admitiria que o Conselho Diretivo do Sporting tomasse qualquer uma das decisões. Ou a suspensão/despedimento ou a manutenção no cargo. 

Neste caso concreto, até existem várias atenuantes. Miguel Albuquerque cometeu um erro, foi punido por isso e reconquistou as pessoas que mais prejudicou com os seus atos. A sua família perdoou os seu erros e a justiça achou que o seu crime não o deveria ter levado a ser excluído da sociedade, tendo-lhe sido aplicada a pena suspensa. Os mais de 20 anos que leva ao serviço do Sporting têm sido de uma dedicação e competência extraordinária, e não podem ser apagados levemente. 

Perante todos estes factos público, parece-me que poderia perfeitamente continuar em funções com uma repreensão e com a condição que os atos que praticou não são para voltarem a ser cometidos, sejam em que circunstância forem. E julgo que a opinião da maioria dos Sportinguistas vai nesse sentido, até porque na manhã em que a notícia saiu não vi grande manifestações a pedirem a "cabeça" de Miguel Albuquerque.

Mas como digo, eu até aceito que o Conselho Diretivo não pense assim e que não o queira ver ligado ao clube pelo sucedido, por considerarem que estes comportamentos prejudicam o Sporting. Aceitaria perfeitamente uma decisão nesse sentido. Mas, se assim fosse, deveriam ter arranjado uma saída "limpa" para ele, por reconhecimento ao trabalho que tem desenvolvido no Sporting ao longo de duas décadas. Até porque temos outra pessoa envolvido com ligação ao clube. A sua companheira (já suficientemente prejudicada), merecia essa "consideração", até porque o despedimento de Miguel Albuquerque também irá afetar a sua família. Existem várias maneiras de fazer isto a bem, que por certo não será preciso estar aqui a sugerir. Toda a gente sabe como isto se faz. 

Sabiam ou não?


Este é um caso particularmente relevante para a orgânica interna do clube até porque a companheira de Miguel Albuquerque chegou ao Sporting ainda antes dele, tendo por isso, mais de 20 anos de "casa". Miguel Albuquerque tem precisamente 20 anos de Sporting, tendo chegado ao clube com apenas 25 anos. Falamos então de duas pessoas que passaram praticamente toda a vida adulta com o "leão rampante" ao peito. 

Como é lógico, a relação do casal era conhecida de toda a estrutura, tal como era conhecido internamente o processo que opôs o casal, a reconciliação e todos os desenvolvimentos. Que fique claro que nenhum funcionário, diretor ou membro dos órgãos sociais recebeu esta novidade pelos jornais, como foi passado pelo Correio da Manhã, até porque, como vimos em cima, no dia em que o julgamento se iniciou o Correio da Manhã deu essa notícia. 

Bem, o que é um facto é que na campanha eleitoral de 2018, Frederico Varandas não se importou com o caso ou com o processo, tendo utilizado Miguel Albuquerque como trunfo eleitoral. Parece-me até evidente que este apoio foi decisivo para a vitória eleitoral de Frederico Varandas. 

Em Maio de 2019, altura em que o julgamento se iniciou e em que o Correio da Manhã fez a primeira notícia, Frederico Varandas também não se pronunciou sobre o assunto, mantendo tudo na mesma. Quer-nos agora fazer crer o Correio da Manhã, com a encomenda do dia seguinte, que o Sporting ficou muito surpreendido pelo assunto e que por isso suspendeu o dirigente. A realidade é que não consideraram a situação relevante, até que...

"Já foste"


Se dúvidas havia sobre quem "plantou" a notícia no Correio da Manhã, as mesmas ficaram dissipadas nas horas seguintes. Desde logo, pela intervenção rapidíssima do Sporting, que pela hora do almoço já estava a anunciar a suspensão de Miguel Albuquerque. Perante isto, eu pergunto: a suspensão do quadro mais alto do Sporting (clube) é tomada por quem? Pelo Dir. Recursos Humanos ou pelo Conselho Diretivo? Parece-me evidente que nenhum Dir. Recursos Humanos no mundo se meteria nisto. 

Ora, se a responsabilidade é do Conselho Diretivo, eu gostaria de perguntar ao Presidente do Sporting se existiu alguma reunião extraordinária do Conselho Diretivo na quinta-feira de manhã para deliberar sobre esta matéria? Que eu saiba as reuniões do Conselho Diretivo são às terças-feiras. A não ser que a decisão já estivesse tomada, mesmo antes da notícia ter saído...

Na notícia do dia seguinte no Correio da Manhã, onde é passada a narrativa de que ninguém no Sporting saberia da conclusão do processo, percebe-se perfeitamente que a encomenda veio do próprio Sporting. Basta olhar para o pormenor do "continua a receber 3.500€ mensais". E percebe-se que é uma encomenda do Sporting porque toda a gente no clube sabia disto. Esta narrativa do "Clube soube pelo Correio da Manhã", é até facilmente desmontada se pensarmos que a notícia do julgamento saiu em Maio de 2019. Então, de maio de 2019, altura em que o processo foi dado a conhecer a todos os portugueses, até esta semana, ninguém no Sporting se lembrou de ver o estado do processo do Miguel Albuquerque? Ninguém quis saber disso? Estamos agora tão melindrados pela condenação que nos borrifamos durante um ano e meio para o veredito que estava para ser anunciado?  

Recordo apenas que este Frederico Varandas em versão "exterminador implacável" para Miguel Albuquerque é o mesmo sujeito que convidou Fábio Paím para "scout" do Sporting, situação que depois não se veio a concretizar porque Fábio Paím arranjou novo clube. Quando falamos de Fábio Paím, falamos de  alguém que teve um custo brutal e prejudicou gravemente o Sporting. Falamos de alguém que é condenado e que esteve preso por tráfico de droga, mas que Frederico Varandas, do alto da sua bondade quis recuperar para o Sporting há coisa de quatro meses.




Para fechar


Não restam grandes dúvidas que estamos perante um saneamento político. Se não fosse esse o caso, e se a suspensão estivesse diretamente ligada à condenação, Miguel Albuquerque já há muito teria de estar suspenso/demitido. Como é lógico, Miguel Albuquerque era um nome importante do universo leonino e uma eventual candidatura ou apoio a outro candidato seriam sempre muito relevantes num próximo ato eleitoral. Com esta história e com a condenação pública por parte do clube, já assumida em comunicado, Miguel Albuquerque foi ferido de morte para o que quer que seja no Sporting. 

Este é apenas e só mais um tiro político na história recente do Sporting. Em 2018, Bruno de Carvalho e Carlos Vieira foram suspensos e impedidos de ir a votos por uma comissão de fiscalização que não foi eleita pelos sócios. Carlos Vieira, um nome de peso para uma eventual disputa eleitoral, está neste momento a ser impedido de pagar quotas por uma utilização abusiva dos estatutos, para ser impedido de concorrer num próximo ato eleitoral. E agora Miguel Albuquerque, que com esta estratégia vergonhosa é eliminado da corrida. Neste momento, este gente continua a trabalhar para eliminar Augusto Inácio, e muito se têm esforçado, uma vez que oficialmente e oficiosamente este Conselho Diretivo e a sua entourage tudo têm feito para o "ferir de morte", como se provam as encomendas no Correio da Manhã relativas a um "processo fiscal", a encomenda no Record com o "caso Sinisa Mihajlovic, ou até mais recentemente, as declarações de Miguel Braga, diretor de comunicação do Sporting há coisa de dois meses. 

E assim segue a nossa vida interna. No final do dia, quem perde é sempre o Sporting, mas não é altura para lamentos porque foi este o caminho que os sócios do Sporting escolheram seguir.  

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