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sábado, 17 de dezembro de 2016

A misteriosa Doyen que lucra 300% com o Sporting



O Supremo Tribunal da Suíça confirmou a decisão de primeira instância de condenar o Sporting a pagar €12 milhões à Doyen pelo negócio de Rojo. Parece magia: a empresa de Malta sai quase sempre a ganhar nos contratos que faz

Pense num negócio com margens de lucro superiores a 500%. Não haverá muitas actividades com esses níveis de rentabilidade. Mas há um negócio, que move paixões, onde semelhantes margens estão a ser conseguidas. É o futebol, que faz vibrar milhões de fãs. Nos bastidores, há centenas de actores pagos a peso de ouro. Se o nome Kondogbia não lhe diz nada, talvez também não saiba o que é a Doyen. Seja bem-vindo à história de um dos fundos mais influentes na história recente do futebol europeu, que só num negócio com o Sporting teve uma margem de lucro de 300%. Mas já lá iremos. 

Geoffrey Kondogbia é um futebolista francês de 23 anos contratado pelo Sevilha em 2012 por €3 milhões. O dinheiro veio de uma empresa que nascera um ano antes, a Doyen Sports Investments (Doyen), como mostra a investigação Football Leaks, coordenada pela rede EIC-European Investigative Collaborations, a partir de documentos obtidos pela revista alemã "Der Spiegel". A Doyen ficou com 50% dos direitos económicos de Kondogbia. Para ter os restantes 50%, o Sevilha prometeu pagar à Doyen €1,65 milhões, mais prestações de €150 mil ao ano até que o jogador fosse vendido a outro clube. Na prática, o Sevilha obteve um empréstimo de €1,5 milhões, com juros de 10% ao ano. Sim, 10%. 

Este seria um modelo de negócio que se repetiria em várias transacções, oferecendo aos clubes sem liquidez uma alternativa ao tradicional, mas cada vez mais fechado, financiamento bancário. A Doyen cobrava aos clubes um juro de referência de 10% para lhes emprestar dinheiro. Dinheiro esse que era avançado pelos accionistas da Doyen a uma taxa indicativa de 4,5%. Com este diferencial de juros a empresa fazia uma parte dos seus ganhos. Era como um banco exclusivo para clubes de futebol. 

O contrato com o Sevilha foi um dos primeiros. No pior dos cenários, se outro clube não adquirisse os direitos de Kondogbia até 2015, a Doyen receberia do Sevilha €3,45 milhões. Mas não foi isso que aconteceu. Em Agosto de 2013, Kondogbia foi contratado pelo Mónaco, que pagou €20 milhões, o valor da cláusula de rescisão. A empresa, que tinha 50% dos direitos, encaixou €10 milhões. O que deu um lucro de €8,5 milhões em apenas um ano: uma rentabilidade do capital investido de 567%, antes de descontadas as comissões. O agente de Kondogbia, Jonathan Maarek, assegurou à rede EIC que a Doyen "nunca teve qualquer influência nas escolhas desportivas" sobre o atleta. 

Em Junho de 2014, a Doyen transferiu €1,3 milhões a uma empresa sua parceira, a Denos Limited, instalada no paraíso fiscal de Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos. A verba é justificada, nos documentos que o Expresso consultou, por serviços de consultoria prestados pela Denos nas transferências dos futebolistas Kondogbia, Falcao e Miguel de las Cuevas. A Doyen não respondeu às questões colocadas pela rede EIC sobre os negócios com Kondogbia. 

A Doyen (que tem sede em Malta e escritório em Londres) e a Denos (que opera no Dubai) partilham uma história comum: a de que nas milionárias transferências de jogadores de futebol os intermediários fazem-se pagar bem e muitas vezes trabalham em rede, recorrendo a paraísos fiscais e a estruturas que permitem ocultar o rasto do dinheiro. 

A Doyen é liderada pelo português Nélio Lucas. A Denos faz muitos dos seus negócios por intermédio de Amadeu Paixão, outro agente português que explora com Nélio Lucas a empresa britânica Principal Sports Management, que por seu turno presta serviços à Doyen. Amadeu, de 64 anos, é um dos mais experientes intermediários portugueses. Nélio, aos 36 anos, é um dos mais ambiciosos empresários do futebol europeu. 

E agora veja como um dos maiores negócios de sempre do Sporting se transformou, paradoxalmente, num dos seus piores pesadelos. Falamos de Marcos Rojo... que renderá à Doyen €12 milhões. Mais juros. 

O CASO ROJO 


Em Julho de 2012, o Sporting contratou o futebolista argentino Marcos Rojo ao Spartak de Moscovo, oferecendo ao clube russo €4 milhões. Desse valor, €3 milhões foram financiados pela Doyen, que ficou com 75% dos direitos económicos do jogador. Além disso, o fundo financiou €1,5 milhões para a contratação do marroquino Zakaria Labyad, e um empréstimo de curto prazo de €1,57 milhões (mais €175 mil em juros). 

No negócio com o Sporting a Doyen salvaguardou-se: por um lado, o fundo garantia que, qualquer que fosse o futuro de Rojo, receberia pelo menos €4,2 milhões pelos seus 75%; por outro lado, estipulava-se que se algum outro clube oferecesse pelo menos €8 milhões por Rojo, o Sporting deveria aceitar ou, não o fazendo, compensar o fundo. Um contrato tirado a papel químico do de Kondogbia: se terceiros oferecessem o dobro do investimento feito pela Doyen, qualquer que fosse a vontade do clube, a empresa de Nélio Lucas podia obrigar o clube a devolver-lhe o capital investido e, em cima disso, um retorno de 100%. 

Os negócios de Nélio foram feitos com um Sporting em situação de emergência financeira. A direcção de Luís Godinho Lopes já tinha alienado uma parte dos direitos económicos dos jogadores do clube ao BES e ao BCP. Pouco antes de sair do clube, em 2013, Godinho Lopes mandatou o agente Amadeu Paixão para vender o avançado Ricky van Wolfswinkel (cujos direitos eram detidos em partes iguais pelo Sporting e pelo fundo irlandês Quality Football). Os ingleses do Norwich ofereceram €10 milhões. A comissão de intermediação foi fixada em €500 mil, cuja facturação Amadeu Paixão deixou a cargo da Denos. Mas o Sporting só pagou metade, considerando que o resto devia ser pago pela Quality Football. E a Denos processou o Sporting no Tribunal Arbitrai do Desporto na Suíça. 

Mais tarde veio um novo processo. Em agosto de 2014, o Sporting vendeu os direitos de Marcos Rojo ao Manchester United por €20 milhões. Descontando €4 milhões para o antigo clube de Rojo (Spartak), caberia à Doyen €12 milhões (o que dava um lucro de €9 milhões, ou 300%, em apenas dois anos). Só que o Sporting decidiu rescindir o contrato e apenas restituir ao fundo os €3 milhões investidos em 2013. Mais tarde a FIM abriria uma investigação sobre este caso. 

A Doyen processou o clube na Suíça e um acórdão de Dezembro de 2015 deu razão à empresa, condenando o Sporting a pagar €12 milhões. O Sporting recorreu para o Supremo Tribunal da Suíça, argumentando que a sentença obriga os leões a pagar "juros usurários" e "valida contratos que violam direitos fundamentais dos jogadores", lê-se no último relatório e contas do clube. Esta quinta-feira, o Sporting informou que o Supremo confirmou a sentença de primeira instância, condenando o clube a pagar €12 milhões mais juros. 

O conflito ilustra os dilemas da indústria do futebol. Para quem defende os fundos, como Nélio Lucas, há dois grandes argumentos. Por um lado, o financiamento ajuda os clubes menos abastados a contratar jogadores melhores. Por outro lado, quando um fundo lucra com a valorização do investimento feito num jogador, também o clube sai a ganhar com a sua transferência. "Os clubes ricos são cada vez mais ricos, por isso a competição é cada vez mais injusta e desvirtuada", lembrou Nélio Lucas numa conferência em Madrid no ano passado. A outra face da moeda é que quanto maior o peso dos fundos, menor é a autonomia dos clubes na gestão do seu futuro. No final de 2014, a FIFA pôs em marcha um plano para acabar com este modelo de financiamento ("third party ownership", ou TPO), banindo-o a partir de maio de 2015.

O FIM DO MUNDO? 


A proibição de novos TPO fez soar os alarmes. Várias empresas estavam focadas no negócio de investir no passe de um futebolista e num par de anos embolsar o dobro ou o triplo. Mas os gestores destes fundos rapidamente pensaram noutras formas de ganhar dinheiro, como o investimento direto nos clubes (e não nos jogadores) ou negócios de titularização de direitos televisivos e direitos de imagem (em que um fundo adianta ao clube o dinheiro desses contratos, com um juro associado). 

Mas é ainda cedo para decretar o fim do mundo para os fundos que investem no futebol. No caso da Doyen, a empresa tem interesses económicos em vários atletas em Portugal. No Benfica, detém 50% dos direitos económicos do jogador Ola John, fruto de um acordo de Dezembro de 2012. Em Agosto desse ano, o Benfica tinha adquirido os direitos ao clube holandês Twente por €9,15 milhões. Em dezembro, a Doyen comprou ao Benfica metade do passe por €4,6 milhões. Mas garantiu que, qualquer que fosse o futuro de Ola John, o Benfica teria de lhe entregar pelo menos €5,95 milhões. O valor ainda está por pagar. 

Este é, tanto quanto sabemos, o único contrato activo da Doyen com o Benfica. Mais a Norte a empresa tem tido resultados interessantes. No Futebol Clube do Porto (FCP) o fundo de Nélio Lucas teve em 2014 um dos seus melhores negócios: uma rentabilidade superior a 300% no investimento feito no futebolista Mangala. Em Dezembro de 2011, a Doyen tinha adquirido 33% dos direitos do atleta francês por €2,6 milhões, quando Mangala chegou ao FCP. Em Julho de 2014, o FCP vendeu os direitos do futebolista ao Manchester City por €30,5 milhões. Negociando separadamente com o clube inglês, a Doyen encaixou quase €11 milhões. Por seu turno, o agente Jorge Mendes, como intermediário, ganhou €4,2 milhões. A FIFA pediu esclarecimentos ao FCP, admitindo que o facto de a Doyen negociar a sua posição com o Manchester City indiciava que o fundo podia condicionar a venda do jogador (contra os regulamentos da instituição). No campeonato inglês os clubes têm de deter 100% dos direitos dos atletas. Logo, se a Doyen não aceitasse vender a sua parte, o FCP não conseguiria transferir Mangala para Manchester. Mas o negócio fez-se. 

Outros jogadores do FCP em que a Doyen adquiriu direitos económicos foram Steven Defour, Radamel Falcao, Brahimi e Sérgio Oliveira. Em todos eles os contratos foram feitos de modo que a Doyen tivesse sempre lucro, independentemente de o clube conseguir ou não valorizar os futebolistas. Na aquisição pelo FCP do francês Imbuía, por €20 milhões (a mais cara contratação de sempre dos dragões), chegou a especular-se que a Doyen teria financiado metade desse valor, mas o FCP assegurou à FIFA ser detentor da totalidade dos direitos do atleta. 

Nélio Lucas teve distintos negócios com os dragões: em 2014 a Vela Management (por ele administrada) ganhou uma comissão de €840 mil na transferência de Otamendi para o Valência, tendo ainda firmado com o clube um contrato de prospecção de talentos por €300 mil. Ora, foi através desta mesma Vela que a empresa Energy Soccer, de Alexandre Pinto da Costa, faturou €700 mil pela transferência de Casemiro do Porto para o Real Madrid. A Energy Soccer é um dos parceiros privilegiados da Doyen em Portugal. Em fevereiro de 2015, o FCP obteve um empréstimo de €3 milhões do Banco Carregosa parcialmente garantido pela Doyen.

O grupo Doyen assume-se como "um dos principais atores da indústria de entretenimento desportivo". A empresa não divulga no seu site os resultados financeiros que obtém. Mas as informações obtidas na investigação Football Leaks indiciam que a Doyen já terá investido mais de uma centena de milhões de euros no futebol e marketing desportivo. O Twente, na Holanda, e o Atlético Madrid, em Espanha, além dos clubes portugueses, foram alguns dos alvos da máquina de fazer dinheiro liderada por Nélio Lucas e financiada pela família Arif. Quem? Explicamos-lhe já de seguida. 

Nélio, o superagente improvável 


Quem é o português à frente da Doyen que em dez anos "passou de contar tostões para contar milhões"? 

Em março de 2000, Nélio Lucas foi caçado a conduzir sem carta e pagou uma multa de €319. Em novembro de 2000, passou um cheque sem cobertura e pagou uma multa de €600. A 29 de novembro de 2000, passou outro cheque sem cobertura e pagou uma multa de €720. Em 2002, cometeu um delito fiscal, foi julgado pelo mesmo em 2005 - e pagou uma multa de €11.90 em maio de 2007. Em agosto de 2015, dez anos e €2929 depois, assinou um contrato para comprar um iate no valor de €3,2 milhões através de uma empresa de Malta. 

Em pouco mais de uma década, Nélio Lucas saiu da Aldeia da Mata para a ilha de Malta, e para as offshores, e hoje é o CEO do fundo mais global e diversificado a operar no futebol: a Doyen Sports Investment. É uma história invulgar que nos traz à cabeça o ideal e o ideário do american dream, o sonho americano à portuguesa de um rapaz obviamente inteligente, mas pobre, filho de dois pequenos agricultores de um lugar de Condeixa-a-Nova, que partiu para os EUA à procura de uma vida melhor. Este é o seu perfil, feito através do cruzamento de artigos de jornais com fontes próximas e com a análise aos documentos do Football Leaks - e revela o percurso improvável deste agente. 

O CAMINHO 


Coimbra, Aveiro, Cape Canaveral, na Florida, Beverly Hills, em Los Angeles, Madrid e Londres. Nélio Lucas esteve em todo o lado e conheceu toda a gente; ou, pelo menos, diz ter estado em todo o lado e conhecido toda a gente, gente importante como Mariah Carey ou Bruce Springsteen, do qual foi road manager na Creative Artists Agency - revelou-o ao "Libération", numa rara entrevista em que ele conta aventuras do seu passado. Uma delas é esta: Nélio garante ter feito um teste de QI cujos bons resultados o levaram a trocar a família e a Mata por uma família de acolhimento na Florida; não foi possível confirmar esta informação. Outra: Nélio diz ter estudado comunicação, marketing e politica internacional na Universidade da Califórnia (UCLA), em LA; contactada pelo Expresso, a instituição assegura não ter nos "seus registos" nenhum "aluno com o nome de Nélio Lucas" ou "Nélio Freire Lucas", de seu nome completo.

Vamos aos factos comprovados: aos 18 anos, em 1997, abriu uma empresa chamada 100% Produções Arte & Espectáculo para organizar festas e outras variedades, e, depois, a L.D. World Football Management, com a qual inaugurou o novo estádio do Beira-Mar, em 2003. Aveiro ter-lhe-á ficado na cabeça, porque foi lá que apareceu outra vez como representante da britânica Stellar Group, de Jonathan Barnett, um agente que dividia a meias um negócio com Pini Zahavi, o superagente original. A ideia era simples: colocar jogadores ingleses no Beira-Mar. Correu mal para o clube, que desceu de divisão, mas bem para Nélio, que começou a colaborar com Zahavi na Soccer Investments & Representation (SIR). 

Em Londres. "Durante nove anos", disse Nélio ao "Libération", "trabalhámos juntos. Ele tinha contactos em Inglaterra, eu no resto do mundo; eu encontrava os jogadores que ele procurava e fechava o negócio". Ganhava 450 mil euros por ano, mais 10% por cada contratação. Pelo meio, Nélio também fez uma perninha como "técnico em gestão de casting de atores", e há um vídeo a correr na internet em que este é entrevistado a propósito disto mesmo. 

AS OFFSHORES 


Em 2010, Nélio decidiu separar-se de Zahavi, e, em 2011, esteve na origem do aparecimento do fundo Doyen Sports Investments, o braço 'desportivo' da Doyen. Nélio conhecera o filho do dono do grupo, Refik Ari, nos EUA, tornaram-se íntimos e quando o fundo quis diversificar a sua atividade o português foi chamado para dar a cara. Segundo conta um amigo, terá sido a própria Doyen a pagar "um milhão de euros a Zahavi" para a rescisão do contrato. Nélio juntou-se a Amadeu Paixão, um misterioso português radicado em Inglaterra, e a Juan Manuel López e Mariano Aguilar, ex-jogadores do Atlético de Madrid dos tempos de Paulo Futre. 

Os quatro fundaram a Assets 4 Sports, em Espanha, pela qual receberiam os pagamentos da Doyen Sports Investment. Nélio, Amadeu, López e Aguilar trabalhariam numa espécie de regime freelance para o fundo. Em 2011, a Assets 4 faturou 150 mil euros e 75 mil euros em 2012; em 2013 a Assets 4 foi extinguida quando Nélio e a sua entourage optaram por sociedades offshore: a Vela, a Principal Sports Management, a Wood Gibbins & Partners Limited, a Denos, a Rixos a PMCI, um complexo esquema de empresas em paraísos fiscais pelas quais passaram a ser feitos os pagamentos relativos às comissões mas também aos custos do ofício, como viagens ou estadias. 

Foi através da Wood Gibbins & Partners Limited que Nélio assinou contrato para comprar o tal iate de 3,2 milhões de euros, por exemplo; sobre a Vela, detida a 50% por Nélio e outros 50% por Aguilar, o Football Leaks demonstra que cada um deles recebe 450 mil euros anuais e 10% de comissão sobre os jogadores transaccionados. Foi igualmente pela Vela que Nélio pagou a festa do seu 350 aniversário, em Londres, que custou €162 mil, com uma lista de convidados a fazer lembrar uma gala da FIFA. Basicamente, constavam lá todos os que são alguém. 

Um salto quântico. Em menos de dez anos, Nélio Lucas passou a viajar em jatos privados, a frequentar as festas mais exclusivas nos lugares menos inclusivos, a dar-se com Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, ou Adriano Galliani, CEO do AC Milan, a ter lugar nos camarotes do Barcelona, Benfica, FC Porto, Real Madrid, na 02 Arena, a almoçar nos melhores restaurantes com os melhores directores desportivos e a dar bacalhaus aos melhores futebolistas do mundo. E, segundo Nélio ao "Libération", a servir como um facilitador de negócios expedito, dando conselhos aqui e acolá pelos quais também cobra - ou tenta cobrar. 

Em Portugal, este benfiquista dos sete costados amigou-se com Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente Pinto da Costa, com o qual intermediou o negócio de Imbuía, do Marselha para o Dragão. Ambos são vistos em jantares na zona de Matosinhos, nos quais Nélio, que tem um fraco por mocassins de pele de crocodilo e por relógios caros, come habitualmente bacalhau ou polvo sem tocar numa gota de álcool. Ele gosta da ostentação. Recentemente, num colóquio internacional sobre fundos e futebol, Nélio foi convidado para ser um dos oradores principais e interveio via videoconferência directamente de uma piscina. Um conhecido de longa data resume-o: "Deixou de contar tostões para contar milhões." 

Este é Nélio Lucas, o mais curioso e ambíguo dos superagentes. E é português. 

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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Como marcar um golo às Finanças



Como marcar um golo às Finanças: Como o futebol se aproveita dos paraísos fiscais


Chutar uma bola em Madrid pode abrir uma empresa nas ilhas virgens britânicas. O efeito borboleta também funciona no futebol. Sempre que 22 jogadores profissionais entram em campo, há sempre alguém em segundo plano a ganhar dinheiro. Pode ser uma figura conhecida, como Jorge Mendes, agente de sucesso de Cristiano Ronaldo, ou um cidadão do Cazaquistão que ninguém tenha ouvido falar. A incidência desses actores no futebol moderno é cada vez mais decisiva, uma vez que fazem a ligação entre o que acontece no relvado e as estranhas sociedades originárias nos maiores paraísos fiscais do mundo.

Em Espanha, a Agência Tributária leva anos a tentar resolver alguns dos problemas que estão por trás da opacidade financeira do desporto mais popular do país. A propriedade de jogadores por fundos de investimento e empresas opacas, a tributação dos direitos de imagem dos jogadores e as relações entre clubes e agentes, são os problemas com que os inspectores se debatem nas investigações mais recentes. A Agência encontrou tantas ligações a paraísos fiscais, que dá para fazer um "11 ideial" - mais banco de suplentes - só de jogadores com problemas fiscais. 

Doyen, a mão que balança a bola


A 25 de Janeiro de 2013, um notário de Madrid verificou algo estranho num contrato que foi ratificado [clique aqui para aceder ao documento]. "Eu, o Notário, alerto os presentes da insuficiência de alegado mandato legal e a necessidade de prova posterior". O notário não ficou tranquilo com as palavras do representante do fundo de investimento Doyen Sports, que, ao indicar a origem do dinheiro administrado pela empresa, só trouxe a sua palavra. O representante da Doyen assegurava que o turco Malik Ali, de 32 anos controlava mais de 25% de participação na empresa.

O contrato foi assinado entre a Doyen Sports e Sporting Gijon e não foi o primeiro. Um ano antes, o nome Doyen tinha aparecido discretamente na parte de trás da camisola de jogo, e depois apareceu em outras equipas de Liga. Dois anos mais tarde, graças a uma publicação do Footballeaks, soube-se que a relação do fundo com o Sporting de Gijon era mais profunda do que o habitual para um mero patrocinador. O clube recebeu um total de dois milhões de euros da Doyen para atender os pagamentos pendentes e a despesas correntes. Em troca, o clube assumiu uma dívida para com a empresa de investimento de 10 milhões, cinco vezes o capital levantado. O dinheiro para pagar estes 10 Milhões à Doyen deveria ser pago através das transferência do seus jogadores para outras equipas. Vender não era uma opção para o Sporting de Gijon, mas sim, uma emergência.


A relação com a Doyen teve um resultado desastroso para o clube, mas o fundo conseguiu entrar no negócio da Primeira Divisão. Hoje, a Doyen detém os direitos económicos de vários jogadores e também se dedicada à gestão dos direitos de imagem com um divisão de marketing. O seu cliente mais importante é Diego Simeone, treinador do Atlético Madrid. A Doyen recebe 20% de qualquer campanha publicitária que o técnico faça e recebe também 20% sempre que haja uma renovação contratual com alguma marca.

A Doyen surgiu em 2011 mas não inventou nada. Simplesmente limitaram-se a imitar um modelo que floresceu na América do Sul na década de noventa, com a compra de direitos de jovens jogadores na esperança de dar um dia o salto para as grandes ligas europeias e gerar comissões multimilionárias com as suas transferências. Essa é uma das modalidades de investimento mais comum destes fundos, chamados TPO (third-party propriedade), mas também se envolve no "financiamento de liquidez" aos clubes, em troca dos direitos económicos dos seus jogadores, como no caso do Sporting Gijon. O fundo fornece dinheiro a um clube para a contratação de uma estrela, mas em troca, recebe uma parte dos direitos equivalentes à contribuição que fez sobre o preço da assinatura atleta. A empresa recebe o dinheiro quando o jogador é transferido para outra equipa.

A Doyen tornou-se num especialista no financiamento de contratações. Um dos casos mais conhecidos é o caso de Radamel Falcao, o atacante colombiano que o Atlético de Madrid comprou ao Porto em 2011. A contratação custou 40 milhões de euros, mas os colchoneros só "meteram" 20 milhões. O resto foi pago pela Doyen em troca de uma percentagem dos direitos do jogador. O fundo recebeu a sua parte quando o jogador foi vendido ao Mónaco em 2013 por 45 milhões de euros, com um ganho de 5 milhões. 

No Reino Unido, as TPO são proibidas porque se considerada que têm um impacto negativo sobre o futebol, ao provocar a venda contínua de jogadores para gerar ganhos de capital e comissões; porque sai dinheiro do futebol para investir em outras actividades; e porque eles causam conflitos de interesse que ameaçam a integridade do futebol. Pode acontecer o caso de que os jogadores de duas equipas que competem na mesma liga pertencem ao mesmo fundo, por exemplo, ou que os titulares são escolhidos no interesse das empresas de investimento para alcançar uma maior rentabilidade. A FIFA deliberou a proibição dos TPO e mantém uma batalha legal para expulsar os fundos do futebol, mas têm encontrado dificuldade para limpar este desporto.

Quadro Fiscal


Aos efeitos perversos que podem ter fundos na opacidade do futebol soma-se a opacidade das estruturas empresariais. Quem está por trás da Doyen? Voltando ao que foi referido pelo notário de Madrid podemos ir mais além do cidadão turco Ali Malik. Os documentos expostos pelo Footballeaks mostram que as fontes de financiamento da empresa são a Bennington Assets Group Limited, de Malik Ali, e especialmente o cazaque Rafik Arif, empresário bem sucedido no sector extractivo do seu país. Ele fez um empréstimo de 100 milhões de euros para sete anos (e com uma taxa de juros de 4,5%) para a sociedade de Ali.

Através dos "Panama Papers", é possível traçar o quadro fiscal de Rafik Arif. Os arquivos da empresa Mossack Fonseca indicam que Arif é acionista da Marlin Negociação Assets Limited, nas Ilhas Virgens Britânicas, e Acewood Global Limited, em Malta, com o qual controla Castello Global, outra empresa localizada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens . A rede foi registrada como Hamels, através de um escritório de advocacia em Malta. O mesmo que registou o Grupo Bennington Assets Limited, nas Ilhas Virgens.

Também nesta sociedade território ultramarino que "trava" a rede de Refik Arif, Rosetti Overseas Limited. Graças ao Footballeaks, você também pode saber que o beneficiário final desta rede é Arif, como evidenciado por um artigo escrito por um consultor fiscal e assistente de um dos contratos da Doyen.

Sevilla e Getafe são outros clubes que permitiram à Doyen conquista uma posição em Espanha. O dinheiro que as equipas pequenas conseguiram para efectuar transferências de direitos sobre um jogador, significaram uma fonte de crédito com o qual as pequenas e médias equipes não teriam sido capazes de contar, especialmente em tempos de crise.

Jorge Mendes


O caso da venda de Diego Costa para o Chelsea é um exemplo de como os lucros destes tipos de fundos se materializam. Dos 38 milhões que o clube inglês pagou, pelo menos 7,6 M estraram na Quality Sports Investments. Nos documentos divulgados pelo Footballeaks, esta empresa com sede na Irlanda, também está relacionada com a transferência de Saul e Koke. Em ambos os casos, chega a ter mais de 30% sobre os lucros destes jogadores.
A Quality Sports, segundo o registo comercial da Irlanda, é uma sociedade que simplesmente se dedica a ser detentora dos direitos de jogadores (ou uma percentagem dos mesmos). Os proprietários são Gestifute International, a empresa Jorge Mendes e a Ventures Sports Limited, uma empresa que se refere a um escritório de advocacia na Califórnia e que não há qualquer vestígio em registos públicos disponíveis gratuitamente.



Para chegar Mendes e expedição deve passar pelo o canal da mancha. Os bens obtidos através da venda de direito de jogadores foram transferidos, até 2014, para a Quality Sports Jersey GP Limited, com sede no paraíso fiscal de Jersey. A Gestifute de Jorge Mendes detém 50% desta empresa e é através desta empresa no paraíso fiscal britânico que é canalizada a liquidez para investimentos da Quality Sports, como atestam as contas anuais da empresa analisadas pelo jornal  "El Confidential".

Fuga ao Fisco


O uso de paraísos fiscais para tirar proveito dos direitos de um jogador de futebol não é uma prática nova. Para provar isso, o plantel da Real Sociedad, que foi vice-campeão da Liga em 2002-2003. Os "Panama Papers" mostram que foram criadas contas off-shore para pelo menos menos sete jogadores, entre os quais o atacante Darko Kovacevic. Uma vez montada a estrutura bancária, passaram a transferir os direitos do jogador para empresas em paraísos fiscais, primeiro para a "offshore" constituída pela Real Sociedad para o jogador e, em seguida, para a sociedade IMFC Licensing BV, registada na Holanda. O clube de San Sebastian efectuava o pagamento do salário do jogador directamente para a empresa holandesa, que, em seguida, transferia os fundos para a conta bancária aberta pelas sociedade nas ilhas virgens britânicas ou em bancos na Suíça ou Jersey.

Os direitos de imagem são os principais "financiadores" dos paraísos fiscais. As relações com os paraísos fiscais são apenas uma parte dos problemas que as autoridades fiscais atribuem à relação dos clubes com os jogadores e os seus agentes. Nesta sexta-feira, Cristobal Montoro, ministro das Finanças anunciou que os empresários devem ser pagos pelos jogadores e não pelos clubes. As Finanças acreditam que esses profissionais trabalham para os atletas e, portanto, devem ser os únicos a pagar todos os seus serviços, em vez de seus clubes.

O objetivo é evitar que "o futebol são onze contra onze, e no final ganha sempre o Jorge Mendes".


Este post foi traduzido e adaptado da versão apresentada pelo jornal espanhol "El Confidential" no passado Domingo. O artigo original pode ser lido (aqui). 

Resumindo


Em Espanha, o fisco anda em cima de tudo o que está relacionado com o futebol, com especial foco para as "negociatas" da Doyen e Jorge Mendes. Já vimos Mascherano, Messi, e outros futebolistas de renome mundial com problemas com a autoridade tributária espanhola. Na passada sexta-feira, a inspecção tributária multou Real Madrid, Barcelona e Atlético a uma coima total de 41 Milhões de Euros por tributação irregular sobre as comissões dos agentes dos jogadores. O Sevilla e Valência também foram multados em mais 11 Milhões de euros. Tudo somado são 52 Milhões de euros que entram nos cofres do Estado Espanhol. Curiosamente todos estes clubes estão envolvidos com Jorge Mendes.

Em Portugal, "no pasa nada". Para o Estado está tudo bem, não há nada a declarar nem nada a investigar. Tudo limpinho, limpinho. Nos jornais, nem uma palavra sobre estas investigações do fisco espanhol. Estamos a falar do país que viu nascer Nélio Lucas e Jorge Mendes, dois dos principais visados pela justiça espanhola. Nada! Nem uma linha...

Por que será?





Aqui ficam alguns posts recentes sobre Jorge Mendes e "sus muchachos"

Tour de France
A orgia do Poder
O "metodo" de Jorge Mendes
A "offshore" do Dragão
Branco mais branca não há
As intervenções divinas de Jorge Mendes
O silêncio ensurdecedor no caso Jorge Mendes

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

EXCLUSIVO - Benfica tem prémios da UEFA penhorados pela Doyen


Nos últimos tempos muito se tem falado na penhora interposta pela UEFA, por requisição da Doyen, aos prémios de participação do Sporting nas competições europeias. O que nenhum jornaleiro ou escriba deste país quis escrever é que quem anda com "penhoras" na UEFA desde 2012 não é o Sporting mas sim... o Benfica.

Por falar em penhoras do Benfica... (link) 

 

A transferência


Ola John foi comprado pelo Benfica ao Twente em Maio de 2012. Twente que na altura era um "clube Doyen" e que agora está a pagar bem caro as "brincadeiras" com o grupo de Nélio Lucas.

Curiosamente, esta temporada chegou mais um jogador ao Benfica envolvido no "escândalo Twente/Doyen", falo de Bilal Ould-Chikh. Podem saber mais clicando (aqui).


Ola John foi comprado por 9,15 Milhões de Euros. O valor seria liquidado em duas prestações por parte do Benfica: 6 Milhões de imediato e os restantes 3,150 Milhões de Euros até 15 de Julho de 2013.


Para além deste montante fixo, o Benfica comprometeu-se a pagar 250 mil euros por cada época em que a qualificação para a Champions League fosse conseguida até ao limite de 4 vezes (1 Milhão de Euros). Algo que se tornou uma realidade (12/13, 13/14,14/15 e 15/16), e por isso há que somar aos 9,15 Milhões esta componente variável. 



(9,15 M + 1 M) = 10,15 Milhões de Euros

O Twente recebeu do Benfica 10,15 Milhões de Euros. Para além deste montante, o clube holandês tem ainda direito a 10% de uma futura venda, caso o jogador seja vendido por um valor superior a 10 Milhões de Euros.

Contrato jogador


Ola John assinou contrato até ao final da época 16/17, com uma cláusula de rescisão de 45 Milhões de Euros. Só em vencimentos durante a vigência do contrato, estamos a falar de 7,3 Milhões de Euros.


Para além dos vencimentos, o jogador teve direito a um prémio de assinatura de 550 mil euros. O total de vencimentos e prémios fixos anda na casa dos 8 Milhões e pode chegar aos 8,5 Milhões mediante o desempenho desportivo do jogador. Em caso de venda a outro clube, o jogador tem ainda direito a um prémio de 250 mil Euros.



Somando o valor pago pelo Benfica ao Twente (10,15M) aos montantes pagos ao jogador em salários e prémios fixos (8M), conseguimos avaliar o negócio em cerca de 18 Milhões de Euros, mas pode ainda subir mediante a performance do jogador.

Prémios para o agente do jogador


O contrato entre o agente e o Benfica foi assinado no dia 23 de Maio de 2012.


Tudo somado, são 219 mil euros em comissão para o agente do jogador. Só que...

Nesse mesmo dia o agente e o Benfica assinam um novo acordo. E nesse novo acordo a coisa muda de figura.

Reparem que só mudaram os valores em relação ao primeiro acordo. Tudo somado estamos a falar de 328.500,00 €.

Da manhã para a tarde o Sr. Harmjan Schilperoort ganhou mais 109.500,00€. Mas ainda há mais uns extras que foram miraculosamente acrescentados do noite para o dia...

- 2,5% de uma futura transferência, após deduzir 10 Milhões de Euros e a contribuição de solidariedade.

- Se uma futura transferência for concluída por um valor superior a 20 Milhões este senhor recebe 3,5 %, após deduzir 10 Milhões de Euros e a contribuição de solidariedade.

Limpinho, limpinho!



A Doyen entra no negócio


O Benfica contratou o jogador em Maio de 2012. Em 24 de Agosto de 2012, Benfica e Doyen celebram um acordo ERPA (Economic Rights Participation Agreement). Neste acordo ficou definida a compra da totalidade do passe do jogador por parte da Doyen, pelo montante fixo da transferência do jogador ao Twente, os 9,15 Milhões falados em cima. 

Este acordo contemplava a obrigatoriedade de o Benfica ter que pagar até dia 31 de Agosto de 2015, 12 Milhões de Euros pela totalidade do passe do jogador à Doyen.

Importa salientar que nos documentos fornecidos pelo Footballeaks este acordo ERPA não se encontra devidamente assinado pelos intervenientes. Provavelmente o documento apresentado pelo Footballeaks será o esboço do contrato final. Contudo, não estando este documento assinado entre os documentos do footballeaks está um outro documento que corrobora tudo o descrito anteriormente. Estou a falar de um acordo onde o Benfica aceita o "penhor" das suas receitas provenientes da UEFA como garantia ao pagamento dos 12 Milhões de Euros.

Como podem verificar no print seguinte, o contrato de "penhor" está claramente indicado o acordo ERPA do dia 24 de Agosto de 2012.


E agora fica o print com a indicação do montante "penhorado" pela Doyen, sobre os prémios monetários da UEFA. Neste acordo até está anexada uma comunicação da UEFA com os montantes e prazos de pagamento.


 

Benfica "esqueceu-se" de colocar a informação no Relatório e Contas


No Relatório e Contas do Benfica, relativo ao primeiro trimestre da época 2012/2013 nem uma palavra é colocada sobre o assunto. Relembro que este relatório deveria ter toda a informação relevante da sociedade do período compreendido entre o início de Julho 2012 e o final de Setembro de 2012. Sendo este um acordo datado de Agosto deveria estar claramente reflectido. 

É caso para dizer "Ó Ana Gomes anda cá ver isto!".

O anúncio do negócio por parte da Doyen

 


Foi esta a notícia colocada pela Doyen no seu site oficial. O Maisfutebol também fez notícia sobre esta situação (cliquem aqui para ler).

Curiosamente, a Doyen assina um acordo onde compra 100% do passe de Ola John ao Benfica mas anuncia no seu site a compra de apenas 80%.

Resumindo até aqui:

O Benfica comprou a totalidade do passe do jogador ao Twente por 9,15M e depois faz a venda à Doyen da mesma percentagem pelo mesmo valor ficando o Benfica a dever à Doyen 12 Milhões. O Benfica "esconde" isto das suas contas e a Doyen anuncia a compra de 80% do passe. Bonito!!!

O negociador implacável está em grande! Mas as "negociatas" não se ficam por aqui.

Mais um acordo ERPA com a DOYEN


No dia 21 de Dezembro de 2012, o Benfica faz um novo acordo ERPA com a Doyen. 

"Considerando a situação da economia global, o Fundo comprará ao clube e o clube venderá ao fundo, 50% dos Direitos Económicos do jogador, por um preço equivalente a 50% do preço fixo de compra acordado entre o Benfica e o Twente no acordo de transferência. Daqui em diante, o fundo e o clube serão respectivamente, donos de 50% dos direitos Económicos do jogador e o clube o dono da totalidade dos direitos federativos do jogador."


Espera lá, então como é que o fundo compra 50% do passe do jogador quando em Agosto já detinha os 100% ? Só podem ter encontrado forma de anular o primeiro acordo. Não encontro outra explicação.


Desta feita a Doyen compra metade do passe por 4.575.000,00 €.

9.115.000,00 € / 50% = 4.575.000,00 €

Quem paga as despesas?


O único pagamento efectuado pelo fundo ao clube foi o de 4.575.000,00 € por 50% do passe. O Benfica assume todas as despesas com o jogador desde salários a prémios e até um bónus de transferência caso seja vendido. Todas as despesas relacionadas com a celebração de contratos, advogados, impostos, etc fica tudo à conta do Benfica. Para além disso não esquecer que tem de pagar 1 Milhão de Euros ao Twente pela questão da entrada directa na Champions.

Desde logo, percebe-se quem é que fez um negócio da China. Mas há mais, muito mais...

Condições do contrato 


Fiz um apanhado das principais cláusulas do contrato para que os leitores se possam aperceber do tipo de "negociata" que Luís Filipe Vieira e Nélio Lucas fizeram.

- Independentemente do valor de venda do jogador, a Doyen tem o direito a uma "compensação mínima" de 5.947.500,00 €. Aconteça o que acontecer a Doyen vai ganhar 1.372.500,00 €

- Se o jogador não for transferido até 31 de Agosto de 2015 o fundo tem direito a receber de imediato os 5.947.500,00 €.  O Benfica pagando nesta data o "mínimo garantido" à Doyen, concede ainda 25% de uma transferência futura, deduzindo o "mínimo garantido". (O prazo já acabou, dou a explicação mais em baixo)

- Qualquer proposta recebida pelo clube tem que ser comunicada à Doyen no prazo de 7 dias com todas as condições discriminadas.

- A Doyen e o Benfica consideram 20Milhões de euros como um valor razoável para uma proposta de transferência. Em caso de existir uma proposta de 20 Milhões ou mais, a Doyen tem o poder de obrigar o Benfica a aceitar a proposta. Caso a Doyen aceite a proposta e o Benfica não queira vender o jogador, o Benfica terá que pagar o correspondente a 50% da oferta apresentada pelo jogador à Doyen, limpos de outras despesas como direitos de formação, comissões empresários, etc.

- O Benfica fica na obrigação de contratar um seguro de vida e incapacidade no montante de 5947.500,00 € em favor da Doyen.

- Se o jogador acabar contrato com o Benfica, o clube terá que pagar à Doyen os 5.947.500,00 €

- Em caso de renovação de contrato do jogador com o Benfica, a Doyen tem 2 opções:
A) Doyen exige o pagamento do "mínimo garantido" 5.947.500,00 € e o Benfica fica com os 100% dos direitos do jogador.
B) Jogador renova e as condições do acordo continuam a vigorar.

- Se o jogador rescindir unilateralmente com o Benfica, a Doyen tem direito ao "mínimo garantido" de 5.947.500,00 € que terá que ser pago pelo Benfica. Num conflito judicial a Doyen mantém os 50% de uma compensação deduzindo o "mínimo garantido", sendo que todas as despesas de um conflito judicial recaem sobre o Benfica.

- A cada empréstimo do jogador a outro clube a Doyen tem direito a 50% do valor do empréstimo que será deduzido ao valor "mínimo garantido".

Neste momento, aposto que os Benfiquistas estarão todos a bater palmas à gestão de topo dos seus dirigentes. 

Para além de o contrato dar totais garantias à Doyen ainda há uma salvaguarda adicional para o Nelinho. Vejamos:

 A "penhora" das receitas da UEFA


O Benfica quando aceitou as condições do acordo ERPA, assinou também um acordo de penhora das receitas da UEFA no valor de 6.542.250,00€.

E pergunta o leitor e bem?  6.542.250,00€ porquê? O mínimo garantido não eram os 5.947.500,00€ ?

A resposta é simples: Para além do "mínimo garantido" a Doyen ainda "espetou" com mais 10% para o caso de existir incumprimento do Benfica.

Mais uma vez, cá está o "Reino do pneumático" a dominar as negociações.


Na lista de documentos anexos ao acordo estão os quadros com o valores dos prémios e as respectivas datas de pagamento. É uma leitura interessante que recomendo aos leitores.

Vitória o "capataz" de Vieira


O Benfica tinha até ao final do mês de Agosto de 2015 para pagar os cerca de 6 Milhões de Euros à Doyen. Como o dinheiro "real" não abunda para os lados da Luz houve a necessidade de medidas "extraordinárias". Se fosse em "Euromendes" não havia problemas.

Durante a pré-época Rui Vitória não conseguiu perceber a valia de Ola John que só jogou 109 minutos. Quando começou a época e principalmente na semana que antecedeu o jogo da Supertaça com o Sporting, toda a classe do jogador veio ao de cima, sendo titular nos primeiros 3 jogos oficiais da época (Supertaça contra o Sporting e na primeira e segunda jornada da Liga).
 

Os "falidos" de Carnide não pagaram à Doyen


Chegamos ao dia 31 de Agosto de 2015 e o "mínimo garantido" não entrou na conta da empresa do Nelinho. O jogador esteve na "montra" nas primeiras jornadas da Liga e só apareceu um clube da II Liga de Inglaterra para o levar por empréstimo. 

Love is in the air


Negociantes do tipo do "técnico de casting" não costumam dar abébias. Mas, como o amor entre a Doyen e os rivais do Sporting está no ar arranja-se solução para tudo. Vejamos as declarações de amor.

Dois meses antes, o Benfica enviou ao TAS, "Paulo Gonçalves (assessor jurídico do Benfica) - que vai em representação de Luís Filipe Vieira" como testemunha da Doyen no caso contra o Sporting. O mesmo Paulo Gonçalves que já conhecia Nélio Lucas de outras andanças.

Amigos para Siempre - Nélio Lucas ao lado de Paulo Gonçalves da SAD do Benfica

Reading, renovação e adiamento do prazo de pagamento


No último dia de transferências (1 de Setembro) Ola John lá partiu para o Reading da II Liga Inglesa. Segundo o jornal OJOGO, o jogador renovou contrato até 2018 (mais tarde viria a ser confirmado no ReC do Benfica) e ficou com uma cláusula de opção de 8 Milhões caso o Reading suba de divisão, algo que não vai acontecer esta época.


Para contornar o problema do Benfica e como o Nelinho anda apaixonado, o Benfica e a Doyen fizeram um aditamento ao ERPA anterior para que o clube possa encontrar forma de "arranjar" o dinheiro. ("Ó Mendes vende-me o Batman da Musgueira, pá"

Este acordo é válido até 31 de Agosto de 2016, conforme se consegue perceber por este print de um documento interno da Doyen que o Footballeaks disponibilizou.


O Benfica conseguiu assim adiar o problema até ao final do mês de Agosto de 2016, sendo que as restantes condições do ERPA anterior mantêm-se inalteradas. A penhora dos 6.542.500,00 € continua activa e por muito "amor" que haja entre Vieira e o Nelinho não me parece que volta a haver aditamentos neste acordo. É caso para dizer "Ó Vieira paga o que deves ao Nelinho, pá!"

Ola John não convence ninguém e não será numa segunda liga inglesa que encontrará um clube que pague algo que minimize o fisco que foi a sua contratação. Como vimos, a Doyen está bem "segura". Por outro lado o Benfica vai mesmo ter que pagar o que deve ao Nelinho e ficar com um perneta para fazer companhia ao Bilal e ao Taarabt.

É sempre bom, ver o rival "estourar" 20 milhões assim.

Fico a aguardar os artigos de opinião, as crónicas dos farináceos, os programas de 3 horas a discutirem o assunto. As doutas opiniões dos "experts" financeiros da treta com os Camelos e os Antunes à cabeça e até quem sabe o pedido de investigação ao Ministério Público, CMVM, FPF das deputadas europeias Ana Gomes e Marisa Matias. 

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quarta-feira, 30 de março de 2016

Agora é que elas Doyen, Nélinho! - O cerco está a apertar



O castelo na areia de Nélio Lucas está a desmoronar-se. Depois de na semana passada, o Tribunal de recurso de Bruxelas ter rejeitado os recursos apresentados pela Doyen, Liga Espanhola e pelo modesto Seraing United, relativos à proibição pela FIFA da detenção de um passe de jogador por terceiros no futebol (link com o artigo - cliquem),  eis que surge mais uma punição.

Desta vez, a FIFA decidiu através do seu Comité Disciplinar impor sanções a quatro clubes por violações relacionadas com a influência ou propriedade de terceiros nos direitos económicos de futebolistas (TPO). Os espanhóis do Sevilla, os holandeses do Twente, os brasileiros do Santos e os belgas do St.Truiden


A base da decisão e os castigos aplicados



Neste artigo de Joel Neto no Jornal OJOGO a situação está bem descrita. Destaco a seguinte passagem: "clubes terem sido responsáveis pela celebração de contratos que permitiram a um terceiro influenciar a independência do clube no mercado de trabalho e matérias relacionadas com transferências".


A influência da Doyen nestes clubes


TWENTE





O clube holandês é provavelmente o caso mais sintomático da destruição causada pela Doyen. Já tinha sido castigado com uma suspensão de participar nas competições internacionais durante as próximas 3 épocas.(link artigo)

SANTOS


(link da notícia no site da Globosport)
(link da notícia no site da Foxsports)

Estas notícias são de hoje e confirmam a influencia da Doyen no clube brasileiro. Leando Damião, Gabriel e Lucas Lima (associado ao Porto) são alguns dos activos made in "Doyen".

SEVILLA

 


Para além do negócio Kondogbia, a Doyen também patrocinou o negócio de Baba 


A cobertura noticiosa em Portugal



Como vem sendo hábito, os pasquins lampiânicos continuam a branquear as derrotas da Doyen, semana após semana. Vejam o tamanho das notícias no Record e em Abola. A notícia teve algum destaque no jornal Ojogo mas numa coluna de opinião, o que não deixa de ser sintomático. Fica a vénia ao jornalista Joel Neto.

Mais uma vez se prova que a posição do Sporting nesta questão se justifica por completo. O castelo de areia do Nélinho está quase a cair. É só esperar que a maré suba... e ela está a subir!

Se calhar é melhor estes "senhores" começarem a arregaçar as calças...

"Godinho Lopes (ex-presidente do Sporting), Pedro Sousa (antigo funcionário do Sporting), Nobre Guedes (ex-dirigente do Sporting), Pinto da Costa (presidente do FC Porto), Paulo Gonçalves (assessor jurídico do Benfica) - que vai em representação de Luís Filipe Vieira -, Adriano Galliani (administrador-delegado do AC Milan) e Florentino Pérez (presidente do Real Madrid) fazem parte da lista de testemunhas da Doyen no processo contra o Sporting." (link da notícia)


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