De hoje em diante podem contar com uma crónica domingueira sobre o momento leonino escrita pelo "Olheiro de balcão". Aqui fica a primeira.
Existe um claro abismo entre gerações diferentes de Sportinguistas que marca dolorosamente a vida interna do Clube. É daquelas lutas fratricidas que decorrem nas famílias para fazer vingar um determinado pensamento, caminho, que uns desejam impor a outros. Talvez a expressão luta fratricida tenha sido exagerada – ou do agrado dos mais radicais, que isto de paixões e amores clubísticos dá para tudo –, mas se preferirem algo mais corriqueiro e banal, imaginem-se naqueles almoços ou jantares (quanto maior e mais heterogénea for a árvore genealógica presente, maior a probabilidade de ocorrência) em que surge um tópico mais sensível na mesa, seja ele de que natureza for, para se entornar mais ou menos o caldo.
A verdade é que há uma clivagem notória entre dois grandes grupos diferentes de Sócios. Não necessariamente na questão etária, mas de anos de associado pelas (disclaimer!) justíssimas benesses que os mais “antigos” têm em relação aos mais “recentes”. Não se medem nem nunca se medirão Sportinguismos por razão alguma e, por exclusão de partes, tão-pouco pela antiguidade. Mais votos nas decisões é um extraordinário reconhecimento que o Clube pode proporcionar ao Sócio, no prémio pela fidelidade bem como à sua contribuição materializada nas quotas, para além do apoio que se espera sempre que estejam Listadas em qualquer campo. Dirijo-me, em especial, aos adeptos que frequentam o pavilhão do Multidesportivo para ver o ténis de mesa; aos que estiveram a apoiar o goalball em Odivelas nos títulos de campeões europeus (masculinos e femininos); aos que seguem os escalões de formação do hóquei em patins; e aos que gostam de ver o Pólo EUL a fervilhar de jovens leões, num qualquer torneio internacional. Tão pequenos e tão orgulhosos da camisola que vestem. Última menção e não a menos revelante: aos que durante anos andaram com a casa às costas atrás das modalidades, espalhadas pela cidade (às vezes fora, de mão), sem nunca regatear dedicação, mostrando devoção e com o esforço de todos, equipas e staff incluídos.
A questão dos diferentes números de votos surgiu na praça pública nas eleições de 2011 e voltou a colocar-se em 2018, desta vez de forma mais paradigmática. Aqui, talvez, tivesse sido a fonte de uma série de equívocos que lançaram o mandato do actual Conselho Directivo numa espiral, como num poço da morte. Aliás, pode apontar-se a Frederico Varandas exactamente o mesmo erro de análise que cometeu Bruno de Carvalho, embora com números e circunstâncias diferentes. Os números são mesmo diametralmente opostos. Bruno de Carvalho saiu da problemática Assembleia Geral de 16 de Fevereiro de 2018 com uma taxa de aprovação de 89,55%, num braço de ferro interno absolutamente desnecessário, se tivermos em conta que precisamente um ano antes tinha tido um resultado eleitoral não muito diferente (86,13%). E desnecessário porque foi precisamente a partir desse ponto que a relação do Presidente do Conselho Directivo com o Presidente da Mesa da Assembleia Geral azedou e atirou o Clube para um autêntico desgoverno. A partir daí, como se costuma dizer, foi sempre a descer. O país seguiu em directo. Nota curiosa do típico ‘karma is a bitch’: as aberrantes alterações nos Estatutos – versões originais depois suavizadas pelo próprio CD, como proponente – acabaram por servir contra Bruno de Carvalho.
Os Sportinguistas, ainda assim, reforçaram o apoio à linha e ao pensamento seguidos, mesmo com o espectáculo degradante do pedido insano para não se ver mais televisões ou jornais que não fosse a Sporting TV. Porém, nunca foi um cheque em branco. Longe disso, como se verificou quatro meses depois. A 23 de Junho, os 89,55% transformaram-se, para BdC, nuns catastróficos 28,64%. O que aconteceu nesses quatro meses ficaria para outros posts, embora esteja directamente ligado à radical mudança que se verificou nos destinos do Sporting. Assim como Bruno de Carvalho poderá ter-se equivocado com o seu momento “I’m the king of the world”, Frederico Varandas ter-se-á equivocado com os 71,36% que quiseram a queda do anterior CD. Não é essa a sua taxa de aprovação. O actual Presidente do Sporting foi eleito com menos 1.018 Sócios votantes que o candidato que ficou em segundo lugar e esse devia ser sempre o número que não lhe devia sair da cabeça. Continua, legitimamente, no desempenho das suas funções. Mas há, no ar, um certo cenário trumpesco, com os (quase) mais três milhões de votos de Clinton, na maior margem de sempre de um derrotado nos Estados Unidos. Até porque o seu lema foi #UnirOSporting que, convenhamos, tem-se revelado um rotundo fracasso. Este episódio da divulgação do resultado da auditoria cobriu o Clube de vergonha nacional, dada a sensibilidade dos dados que foram tornados públicos. Não foram partes. Eventualmente seleccionadas, primeiramente, para a Comunicação Social para depois, então sim, disponibilizar aos Sócios, mediante consulta digital. Foi na íntegra. Mais: no dia em que foram conhecidos os resultados da auditoria nos jornais, o Sporting divulga um comunicado em que dá conta que, dois dias depois, os Sócios que quiserem podiam pedir a consulta do documento. Enviaram uma cópia do mesmo às autoridades – o que não tinham de o fazer, mas foi essa a opção –, sujeitando-se assim ao que daí poderá vir, não tanto pelo foro criminal, mas porque a primeira a esfregar as mãos de contente deve ter sido a Autoridade Tributária. Auditoria relativa ao período de Junho de 2013 a Junho de 2018, de contas auditadas e posteriormente validadas pela CMVM.
A sanha persecutória ao anterior Presidente, esta aparente cegueira pelo castigo exemplar agudiza ainda mais o insucesso do lema escolhido e afasta o Conselho Directivo de uma larga fatia de Sportinguistas que, não sendo aquilo a que normalmente se apelida de brunistas, não vêem razões para demonizar alguém que deixou obra feita. Obra de regime, como é o Pavilhão João Rocha. Nem tudo foi mau nos últimos cinco anos e por mais paradoxal que a ideia possa parecer, tudo o que está a ser feito para exorcizar o fantasma de um Presidente passado só está a fazer com que se torne ainda mais forte. Porque não é de Bruno de Carvalho que os Sócios sentem falta: é da sua presidência e da Glória que trouxe ao Clube. Da rotura que representou ao claro sinal de retrocesso que este novo caminho parece dar a entender, esta tentativa forçada de erradicar, para um grupo de Sportinguistas, a fonte de todo o mal está a ajudar a cristalizar a ideia de que, mesmo com os seus defeitos, o que havia era sempre melhor do que aquilo que existe, sem que isso se possa considerar síndrome de Estocolmo.
Mudou, indubitavelmente, o Clube. Para melhor, como muita gente dentro do próprio CD reconhece. E fora dele, também. Acredito que Miguel Albuquerque tenha aprendido e crescido como dirigente com Bruno de Carvalho. Negá-lo seria uma ingratidão, até porque em última análise era o Presidente e o seu Conselho Directivo que definiam a política de investimento nas modalidades. Miguel Albuquerque tinha a seu cargo, então, apenas o futsal, mas todas as outras foram também beneficiadas. De uma forma ou de outra, quanto mais não fosse através de programas específicos de apoio a atletas com necessidades específicas, como era o caso dos que faziam (e fazem) parte do Gabinete Olímpico. A entrevista que ontem concedeu ao Record é politicamente lamentável em vários sentidos, desde logo pelo ‘timing’ escolhido. Provavelmente, já tinha sido dada antes de Frederico Varandas ter falado após a vitória na Choupana. No entanto, e mais uma vez, a incompetente comunicação fintou-se a si própria, se é que têm, realmente, algum controlo nos momentos em que cada elemento fala. É lamentável ainda porque, apesar de poder não ter sido essa a intenção de Miguel Albuquerque, a liberdade editorial de José Manuel Freitas levou-o a dar destaque às reais e verdadeiras intenções de, um dia, poder ser candidato à presidência do Sporting. Legítimas, atenção. Independentemente de dizer que nunca será oposição (interna ou externa) a Frederico Varandas – mal seria, já que é o director-geral para as modalidades –, colocar-se como possível alternativa (agora) é o mesmo que dizer ‘nunca contribuirei para que tal aconteça, mas quando cair, cá estarei’. Até porque defendeu que os mandatos são para serem cumpridos e se assim é, fica difícil defender o (bom) momento da declaração porque o actual mandato vai no seu sétimo mês… de 48! O tempo passa depressa, mas Miguel Albuquerque considerou pertinente apresentar-se como alternativa a mais de três anos de distância. Ou relembrar que pode ser.
As modalidades mantêm-se pujantes, seguindo o modelo implementado pelos anteriores dirigentes e tenho a certeza a absoluta que Frederico Varandas será o primeiro a ficar satisfeito pelo facto de se ter investido 20 milhões de euros em cinco anos nas modalidades, com os resultados que se conhecem. Muitas delas tricampeãs, como o futsal e o ténis de mesa, bicampeãs como o andebol e campeãs ao fim de muitos anos, como o hóquei em patins e o regressado voleibol, no bom caminho para revalidar o título. Como Sócio, acho até que 20 milhões é pouco. Devíamos reforçar. Andamos há dois anos a tentar ser campeões europeus no futsal contra uma equipa que gasta por ano mais do que nós temos para todas as modalidades. O retorno está mais do que garantido. É assim que se encantam parceiros. Ainda mais.
Esta fuga dos resultados da auditoria para a praça pública foi (mais um) duro golpe na periclitante gestão do Clube, martirizando ainda mais a família leonina, já demasiado fustigada por esta autêntica guerra de tronos. É assim que se tira vida a Alvalade. Desacredita qualquer um. Talvez desencante parceiros. Acaba por perder-se sempre alguma coisa que dificilmente se consegue recuperar em tempo útil. Frederico Varandas, 10 dias depois – mais uma vez um timing extraordinário –, veio comungar das preocupações dos Sportinguistas que se queixam da fuga da auditoria e até apresentou queixa na Polícia Judiciária e abriu um inquérito interno. Óptimo. Esperemos pelos resultados de ambos, embora acredite que as averiguações realizadas possam vir a revelar-se infrutíferas. O que já não compreendo são os fogos que este CD tem apagado, atribuídos por Frederico Varandas ao anterior executivo. Deu como exemplos os batuques desta vida e outros assuntos de menor importância, esquecendo a justificação que ainda tem de dar ao Clube pelos dois milhões de euros do tão desconhecido como famoso “protocolo chinês” com o Wolverhampton. Os problemas de tesouraria (e financeiros) que teve de resolver com um empréstimo em piores condições do que aquele que o anterior executivo tinha alinhavado só foi possível porque existe o milionário contrato da NOS. Conseguido por quem? Dá ideia que o actual bombeiro de Alvalade anda em acção, não com extintores domésticos mas com um camião cisterna deixado pelo próprios incendiários, segundo a sua avaliação.
Unir o Sporting tem sido uma grande mentira. Revelou-se um enorme engodo. Não estavam realmente preparados para o alcançar. Aquilo que considerou prioritário poderá, porventura, revelar-se a maior fatalidade deste elenco que comanda os destino do Sporting. Assim como a mesma comunicação que os terá encaminhado na subida ao poder será, certamente, a chumbeira que também os levará ao fundo. Como escreveu Cervantes em D. Quixote, só se será realmente melhor do que alguém se se fizer melhor. Friamente, é isso. Fará Varandas melhor?
Um último reparo, pelo ridículo da situação: apesar de cumprir castigo disciplinar pelas razões que se conhecem, Carlos Vieira foi apontado, pelo actual Conselho Directivo, como testemunha nos processos relativos às rescisões. Gente de bem é assim.
Texto do "Olheiro de balcão"
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