A habitual publicação anual da FPF relacionada com as comissões do nosso futebol permite-nos ter uma melhor percepção da gestão que é feita nos clubes e as relações que se estabelecem entre estes e os agentes.
Na passada sexta-feira já escrevi sobre o panorama geral da época 2018/2019 (aqui) e para hoje quero falar de quatro casos particulares relacionados com o Sporting: o negócio Sturaro e os regressos de Bruno Fernandes, Battaglia e Bas Dost.
Antes de começar, recordar que a FPF não divulga os valores associados a cada negócio, divulgado apenas o valor total por clube. Aqui está algo pelo qual vale a pena lutar para que em futuros relatórios se saiba ao certo o valor que cada empresário recebeu por cada negociação.
A comissão de Sturaro
Uma das transferências sinalizadas pela FPF como tendo intermediação com direito a comissão foi a de Stefano Sturaro. O jogador "chegou" ao Sporting em meados de Agosto do ano passado e na altura a imprensa referiu que o Sporting contou com a "ajuda" de Jorge Mendes para fechar o negócio e que o empréstimo custaria ao Sporting cerca de 2 milhões de euros.
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| Link da notícia (aqui) |
Passado algum tempo a imprensa referiu que estes 2M estavam relacionados com o salário do jogador. O Sporting não pagaria pelo empréstimo, mas ficaria responsável por 2M do vencimento do atleta. E isso bate certo com o que depois foi publicado no jornal Sporting e na CMVM.
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| Publicação CMVM com os valores de Transferências de Verão |
Como podem verificar, o Sporting não pagou nenhum montante à Juventus, mas anunciou o pagamento de 150 mil euros de comissão ao agente Carlo Volpi por este negócio absolutamente vergonhoso. Como se sabe o Sporting já durante a gestão de Frederico Varandas devolveu o jogador à Juventus, razão pela qual ficou a dúvida no ar sobre se o Sporting teve de pagar a comissão ao agente ou se pagou algum salário ao jogador. Relativamente à comissão, ficamos agora com a confirmação oficial do pagamento por parte do Sporting de 150 mil euros de comissão por um jogador que não fez sequer um único treino no Sporting. Fica por saber se pagamos algum montante adicional relacionado com vencimentos. Perante isto, não admira que o agente de Sturaro tenha os dirigentes do Sporting em tão grande consideração.
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| Link da notícia (aqui) |
Já vi muita coisa no futebol, mas nunca tinha visto um clube investir num jogador lesionado mantendo-o em Itália durante meses. Negócios à moda de Sousa Cintra.
A comissão de Bruno Fernandes
A comissão pelo regresso de Bruno Fernandes ao Sporting também foi sinalizada pela FPF e sobre esta matéria não há muito a acrescentar, até porque no relatório e contas está referido claramente que o Sporting pagou 1,6M ao empresário do jogador pelo seu regresso.
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| Relatório e Contas da Sporting SAD - 1º Semestre 18/19 |
Resumindo, o Sporting não pagou um cêntimo adicional ao jogador, mas pagou 1,6M aos empresários por um jogador que já era seu, como os tribunais irão provar em outros casos de rescisões.
Continuo sem conseguir compreender o porquê de os seus empresários garantirem 1,6M de comissão do Sporting sem que tenham feito algo de positivo em todo o processo. O jogador regressou ao Sporting por vontade própria e por ter reconhecido o erro. Tanto assim foi que impôs como ponto de honra regressar nas mesmas condições que tinha inicialmente. Por isso mesmo, continuo sem perceber o motivo pela qual Sousa Cintra ofereceu 1,6M ao empresário Miguel Pinho.
Se o senhor Miguel Pinho tiver vergonha na cara abstêm-se de receber qualquer verba caso o Sporting decida renovar contrato com Bruno Fernandes, como vem sendo publicado na imprensa. E se não estiver disponível para isso, talvez seja hora de o nosso capitão deixar de ser representado por gente dessa estirpe.
A comissão de Rodrigo Battaglia
Também através do relatório da FPF ficamos a saber que o regresso de Rodrigo Battaglia ao Sporting deu à Laco Investments LTD uma comissão, mas não sabemos os montantes relacionados com esse negócio, até porque nos relatórios e contas não há nenhuma referência. Fica por saber quanto é que custou o regresso do jogador em comissões e se de facto foi alvo de um monumental aumento de salário, como se diz nos corredores. Parece-me que os Sportinguistas merecem saber.
A comissão de Bas Dost
Relativamente ao gigante holandês, para além da loucura absoluta de aumentar de 3M para 6M por época (11 equipas da Liga têm orçamentos anuais inferiores a este montante), Sousa Cintra e amigos decidiram também pagar uma comissão à Stars & Friends Germany GMBH, conforme diz o relatório da FPF. Relativamente a estes montantes é possível analisar as variações do saldo de fornecedores nos relatórios e contas do Sporting para tentarmos chegar ao valor da comissão.
Ora, nas contas anuais de 2017/2018, a Stars & Friends tinha a receber cerca de 150 mil euros do Sporting. No ReC do 1º trimestre de 2018/2019 o valor manteve-se nos 150 mil euros. Só que no segundo trimestre de 2018/2019 o valor em dívida a esse fornecedor subiu para mais do dobro.
Como podem verificar, a 31 de Dezembro de 2018 o Sporting devia a essa entidade cerca de 387 mil euros. Falamos de um aumento de 237 mil euros em relação às contas de final da época 17/18, o que demonstra que no mínimo estamos a falar de uma comissão nesta ordem de grandeza. Era também importante os Sportinguistas saberem ao certo quanto se gastou nesta brincadeira.
Resumindo
- Sousa Cintra e seus pares ofereceram 150 mil euros de comissão ao empresário Carlos Volpi pela transferência de Sturaro. Um jogador que nem sequer um treino fez com a camisola do Sporting. Neste momento ainda não sabemos se o Sporting suportou algum montante dos 2M de salários que estavam estipulados no contrato de empréstimo;
- Sousa Cintra e seus pares ofereceram 1,6M ao empresário Miguel Pinho pelo regresso de Bruno Fernandes, quando o próprio jogador reconheceu o erro de ter rescindido contrato. O atleta decidiu regressar ao Sporting tendo como ponto de honra manter as condições iguais às que tinha quando rescindiu, razão pela qual não haveria qualquer verba a pagar ao empresário do jogador que em todo este processo só tentou roubar um activo do Sporting. Espero que o Sporting abra os olhos e que na negociação de renovação de contrato este senhor não veja um único cêntimo;
- Sousa Cintra e seus pares decidiram pagar uma comissão aos agentes de Rodrigo Battaglia e esconderam esse montante dos relatórios e contas do Sporting assim como das publicações relativas a transferências de jogadores. Por saber está também o aumento de vencimento que o jogador terá tido;
- Sousa Cintra e seus pares decidiram pagar uma comissão de pelo menos a 237 mil euros aos agentes de Bas Dost e segundo vários jornais nacionais inclusivamente generalistas, o atleta passou dos 3M/época para uns inacreditáveis 6M por época;
- Como "extra" ao post, acrescentar um paragrafo da crónica de Octávio Ribeiro no Record de dia 4 de Abril.
E a isto ainda há tanto a somar. Basta recordarmo-nos do cancelamento do jogo da selecção em Alvalade para poupar os meninos que rescindiram contrato de uma recepção calorosa (Rui Patrício, William e Gelson), ou do prémio de 10 mil euros dado a cada jogador pelo empate na Luz (só aqui foram no mínimo 180 mil euros, se pensarmos que só os convocados receberam). E por ai fora...
Para fechar
Como vimos é impossível dizer o real valor que Sousa Cintra e seus pares gastaram em comissões nestes 4 "negócios", mas falamos de um montante global que só pelos factos que foram dados a conhecer ultrapassa os 2 milhões de euros. E isto é fazer as contas por baixo e sem considerar aumentos de salário e outros prémios.
Não deixa de ser sintomático que os actuais dirigentes do Sporting não abram a boca para criticar a gestão verdadeiramente miserável que Sousa Cintra fez no Sporting, mas que por outro lado se mostrem sempre disponíveis para criticar a gestão de Bruno de Carvalho. Por que será que todos estes casos não são comentados?
E não me interpretem mal, continuo a dizer que estes assuntos devem ser debatidos dentro de casa e não em conferências de imprensa, mas já que foi esse o caminho escolhido por Varandas, porque não falar também publicamente da gestão de Sousa Cintra? E já agora, porque raio é que a gestão do homem que faliu uma cervejeira num país de bêbados não é escrutinada através de uma auditoria de gestão? Desde Roquette a Bruno de Carvalho está tudo auditado. Porque razão se deixa ficar por auditar este curto período da história do Sporting?
Enquanto sócio gostaria de ver estes assuntos debatidos em sede de Assembleia-geral, até porque falamos aqui de questões que vão para além das questões monetárias como acontece com os casos das rescisões. Infelizmente, estes órgãos sociais continuam sem marcar uma AG para auscultar os sócios e dar alguma explicações. E aqui quero também destacar pela negativa o papel de Rogério Alves, presidente da MAG, que anda completamente desaparecido e nem sequer é capaz de dar uma palavra aos associados.
Bem, resta-nos esperar por mais alguma conferência de imprensa...
Bem, resta-nos esperar por mais alguma conferência de imprensa...
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