" Mister do Café: "Caso Jovic" - Reforço do Benfica B rendeu 4,6 milhões a clube onde nunca jogou

sábado, 17 de dezembro de 2016

"Caso Jovic" - Reforço do Benfica B rendeu 4,6 milhões a clube onde nunca jogou


Há futebolistas internacionais a ser adquiridos e emprestados pelo clube cipriota Apollon Limassol sem sequer passarem pela ilha de Chipre, segundo avança o portal "The Black Sea", no âmbito da investigação "Football Leaks", desenvolvida pela rede EIC - European Investigative Collaborations, a partir de dados obtidos pela revista "Der Spiegel". O Apollon acolhe actualmente vários portugueses, como o guarda-redes Bruno Vale, os defesas Nuno Lopes e Tiago Gomes e o médio João Pedro Cunha. 

O clube cipriota tem vindo a adquirir uma série de jogadores naquilo que poderá configurar um investimento sem fins desportivos. Desde maio de 2015 que a FIFA baniu a prática dos TPO ("third party ownership", em que terceiros, que não o jogador nem o clube, detêm uma parte dos direitos económicos do atleta). O modelo dos TPO, que visava facilitar a aquisição de futebolistas pelos clubes (já que diminuía o investimento a seu cargo, que era parcialmente suportado por terceiros), é visto pela FIFA como uma possível influência dos fundos no futuro dos jogadores, que mina a capacidade dos clubes de decidir se transferem ou mantêm os atletas nos seus quadros. 

No caso do Apollon Limassol, aparentemente foi o próprio clube que assumiu, perante outros clubes, o papel de investidor externo. É o que decorre dos documentos a que a investigação "Football Leaks" teve acesso. 

Há pelo menos sete futebolistas da Sérvia e da Roménia que assinaram pelo Apollon Limassol e que nunca jogaram pela equipa: Mijat Gacinovic, Nikola Maksimovic, Nikola Aksentijevic, Marko Pavlovski, Cristian Manea, Luka Jovic e Andrija Zivkovic. Os dois últimos estão actualmente ao serviço do Benfica. Jovic foi contratado pelos encarnados no início deste ano e tem jogado pela equipa B. Zivkovic chegou no verão. Já lá vamos. 


ÀS COMPRAS NA EUROPA DE LESTE 


Cinco de Janeiro de 2015. Dois dias depois de o FC Porto cilindrar o Gil Vicente por 5-1 para o campeonato, o então administrador Antero Henrique terá sido abordado por Marc Rautenberg, um intermediário suíço, com uma lista de cinco promissores jogadores da Sérvia e da Roménia, um deles com 20 anos e os outros menores de idade. 

A verdade é que nenhum destes jovens acabou no Porto. Dois deles assinaram pelo Apollon Limassol antes de serem encaminhados para o Benfica e para o clube alemão Eintracht Frankfurt. 

O Apollon é um ponto de passagem pelo qual os dirigentes de clubes do Leste da Europa têm vindo a negociar os seus talentos. O preço a que vendem ao clube cipriota é normalmente muito mais baixo que o preço de venda final para os clubes maiores na Europa ocidental. 

Vários jogadores são vendidos no espaço de poucos dias para os clubes ocidentais, mas o lucro fica com os investidores no Chipre, em que se inclui Pini Zahavi. 

O Apollon lucrou cerca de 4,6 milhões de euros com um jogador - Jovic - que não jogou sequer um minuto pelo clube 

O avançado sérvio Luka Jovic, nascido a 23 de Dezembro de 1997, é provavelmente o futebolista mais talentoso do leque de ofertas que Marc Rautenberg fez ao FC Porto em janeiro de 2015. Com 16 anos, foi o mais jovem futebolista a alinhar no clássico de Belgrado, entre o Estrela Vermelha e o Partizan, em outubro de 2014. 

A 25 de janeiro de 2015, o Estrela Vermelha vendeu 70% dos direitos económicos de Jovic ao Apollon Limassol para um contrato de três anos. Mas o jogador continuou a alinhar pela equipa sérvia. 

Naquela altura, os dirigentes do Estrela Vermelha chegaram a dizer aos media em Belgrado que precisavam urgentemente de receitas para pagar as dívidas do clube, caso contrário o emblema arriscava-se a não poder ir às competições europeias. 

O Estrela Vermelha acabou por vender 70% do passe de Jovic ao Apollon por 1,4 milhões de euros, com o clube cipriota a ficar com a opção de comprar mais 30% por 600 mil euros. Mas Jovic nunca jogou pelo Apollon. Permaneceu em Belgrado. E um ano depois, a 1 de fevereiro de 2016, foi para o Benfica. 

Luka Jovic não respondeu às questões que lhe foram endereçadas sobre se alguma vez passou por Chipre 

Nos registos da FIFA, Luka Jovic veio para Portugal como jogador do Apollon Limassol. Ficou acordado que o clube cipriota receberia 6,65 milhões de euros do Benfica, apesar de aparentemente o Apollon nada ter feito pela valorização desportiva do atleta. Num prospecto enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários em Abril, o Benfica informou ter realizado um investimento de 6,58 milhões de euros em Jovic. O contrato enviado à FIFA indicava que este montante seria pago em prestações: 1,2 milhões de euros em Fevereiro de 2016, outros 1,2 milhões em Julho deste ano e outras três prestações de 1,4 milhões de euros cada em Julho de 2017, 2018 e 2019. 

Resumindo: o Apollon lucra cerca de 4,6 milhões de euros com um jogador que não jogou sequer um minuto pelo clube. 

Porque terão os responsáveis do Estrela Vermelha permitido o que parece ser um negócio tão mau? O líder da formação de Belgrado é Zvezdan Terzic, antigo presidente da federação de futebol sérvia (de 2005 a 2008). Terzic já foi acusado de desvio de fundos em quatro transferências quando era presidente do OFK Belgrado, pouco depois do ano 2000. Esteve em fuga durante dois anos, até se entregar às autoridades em 2010. Em junho de 2011 pagou um milhão de euros e saiu da prisão.

Terzic voltou rapidamente ao ativo como presidente do OFK e posteriormente do Estrela Vermelha. A irmã de Terzic é casada com Nikola Damjanac, antigo guarda-redes do Partizan que representou o Benfica nas negociações com Luka Jovic. Por essa intermediação, Damjanac recebeu uma comissão de 100 mil euros do clube português. Damjanac integra a agência Lian Sports, juntamente com Marc Rautenberg e Fali Ramadani. 

Luka Jovic não respondeu às questões que lhe foram endereçadas sobre se alguma vez passou por Chipre. Rautenberg, Damjanac, Terzic e Ramadani também não. Jovic está actualmente no Benfica B, depois de no início deste ano ter sido emprestado ao Vitória de Setúbal. 

O caso de Zivkovic é um pouco diferente. O atleta foi contratado pelo Benfica em Julho deste ano, vindo a custo zero, depois de terminado o contrato que o ligava ao Partizan. Os direitos económicos de Zivkovic estavam há algum tempo repartidos. O Partizan detinha apenas 25% do passe, com 50% nas mãos do Apollon Limassol desde julho de 2014 e o restante repartido por outros agentes. Este ano chegou a circular o rumor de que o Benfica teria pago uma comissão em torno de 4 milhões de euros pela contratação de Zivkovic. O último relatório e contas do clube é omisso quanto aos custos associados a este atleta. 

APOLLON, CLUBE DE ALUGUER? 


O uso do Apollon Limassol como veículo meramente instrumental pode não ser do conhecimento do público em geral, mas há um alto responsável da FIFA, Marios Lefkaritis, que está estreitamente ligado ao clube, já que trabalha para a petrolífera Petrolina, patrocinadora do Apollon Limassol, e é adepto do clube. 

A revelação surge pouco depois de o sindicato de futebolistas FIFPro ter divulgado uma pesquisa segundo a qual 29% dos futebolistas que foram transferidos a custo zero em final de contrato disseram que foram pressionados para ir para outro clube ou não rumaram ao emblema que desejavam. 

No passado, a FIFA já sancionou clubes na Argentina e no Uruguai pela prática de serem instrumentalizados como "clube-ponte" sem que os jogadores alguma vez vistam a sua camisola.

Um dos acionistas de referência do Apollon Limassol é o israelita Pini Zahavi, um dos maiores agentes do futebol europeu e que em Portugal tem interesses económicos em vários jogadores 

Associado a este esquema em Chipre está o agente israelita Pini Zahavi, um antigo jornalista desportivo na década de 1970 que, através de uma rede de advogados, intermediários, dirigentes desportivos e empresas offshore se tornou um dos mais poderosos agentes do futebol europeu. Segundo um documento consultado no âmbito do "Football Leaks" e de acordo com o testemunho de um antigo dirigente, Zahavi é accionista do Apollon Limassol. Mas nem Zahavi nem Nikos Kirzis, presidente do clube, estiveram disponíveis para responder às questões colocadas pelo "The Black Sea" e pelo EIC, ao qual o Expresso se associou para este projeto. 

Hoje com 73 anos, o israelita Pini Zahavi ajudou Roman Abramovich a comprar o Chelsea e apoiou o empresário Alexandre Gaydamak a adquirir o clube britânico Portsmouth, que entretanto faliu 

A primeira divisão do campeonato cipriota está a milhas das grandes ligas europeias. Exceptuando os quatro principais clubes, as restantes equipas não têm normalmente mais de 300 pessoas nas suas bancadas em cada jogo. 

Registo na FIFA 

Uma das principais equipas cipriotas é o Apollon Limassol, que está instalado na cidade de Limassol, onde residem milhares de russos. Fundado em 1954, o clube foi campeão três vezes (1991, 1994 e 2006). Desde 2012, a empresa que administra o clube, a Apollon Football Limited, é presidida por Nikos Kirzis, um antigo agente do futebol e do basquetebol, com 41 anos. 

O Apollon é também o clube do presidente do Chipre, Nikos Anastasiades, que em meados do ano passado recebeu de Nikos Kirzis uma manifestação pública de agradecimento pelo apoio dado pelo chefe de Estado à construção do novo estádio do clube, que estará pronto em 2019. 

Outra figura que apoia o Apollon é Marios Lefkaritis, um dos responsáveis que apoiaram a organização dos campeonatos do mundo de futebol de 2018 e 2022 na Rússia e no Qatar, respectivamente. A petrolífera Petrolina, fundada pela sua família, esteve envolvida num controverso negócio com a Gazprom dois dias antes da eleição da Rússia para albergar o campeonato de 2018, mas Lefkaritis garantiu na altura que as duas coisas não estavam relacionadas. 

Contactado pela rede EIC, Lefkaritis disse não ter negócios com a família Kirzis (presidente do Apollon Limassol), remetendo quaisquer explicações ou comentários para o próprio clube, cujo presidente também não respondeu. 

Em Março deste ano, o clube fez um aumento de capital de 2,39 para 3,19 milhões de euros. Um dos accionistas, com 16%, é a SIAVA Trading Limited, uma empresa offshore que é detida pelo agente Pini Zahavi. Um antigo dirigente do Apollon confidenciou que é o apoio financeiro de Zahavi que tem mantido o clube operacional. Pini Zahavi não respondeu às questões que lhe foram endereçadas.

E QUEM É ZAHAVI? 




Hoje com 73 anos, o israelita Pini Zahavi ajudou Roman Abramovich a comprar o Chelsea e apoiou o empresário Alexandre Gaydamak a adquirir o clube britânico Portsmouth. Zahavi também esteve nas transferências do defesa Rio Ferdinand para o Leeds e para o Manchester United. 

"Tem 73 anos e ainda anda a fazer negócios", diz um agente concorrente. "Tem a juventude de um miúdo de 15 anos, porque tem um ego grande e a vontade de provar que ainda não está acabado", acrescenta a mesma fonte. 

A Leiston Holdings, empresa à qual Zahavi está associado, financiou a organização israelita Elad, que tem promovido a colonização judaica da zona Leste de Jerusalém, segundo o jornal "Haaretz".

Zahavi, um antigo jornalista desportivo, estabeleceu uma rede de contactos nas comunidades russa e ucraniana para ganhar influência na Europa de Leste. Apesar de ter intermediado vários negócios bem-sucedidos, a compra do Portsmouth por Gaydamak foi considerada um fracasso, já que o clube faliu em 2010. Zahavi já afirmou que perdeu dinheiro nesta empreitada. 

Atualmente um dos melhores ativos que Zahavi tem na sua carteira de clientes é o futebolista argentino Javier Mascherano, que joga pelo Barcelona. 

Zahavi é uma figura influente no futebol português 

Zahavi chegou a trabalhar com um agente chamado Gustavo Arribas, que desde o ano passado trabalha para os serviços secretos argentinos. Zahavi Arribas e um outro agente criaram a HAZ, uma empresa com sede em Gibraltar que está envolvida em várias transferências de jogadores da Argentina para a Europa. 

Pini Zahavi tem também uma participação na empresa HAZ Racing Team, que opera na Argentina. E há ainda uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, a Leiston Holdings, à qual Zahavi está associado. A Leiston foi referenciada este ano, segundo o jornal "Haaretz", como um dos grandes doadores de fundos à organização não governamental israelita Elad, que é acusada de adquirir imóveis na zona leste de Jerusalém para afastar moradores palestinianos e aí instalar comunidades judaicas. 

Zahavi é uma figura influente no futebol português. Em Portugal é representado pelo seu sobrinho, Nir Zahavi. Através da Leiston Holdings, o empresário israelita detinha 45% dos direitos económicos de André Carrilho, jogador que deixou o seu contrato com o Sporting terminar para se transferir a custo zero para o Benfica. 

O agente israelita também participou no último verão no negócio pelo qual o Inter de Milão adquiriu os direitos económicos de João Mário ao Sporting por 40 milhões de euros. Zahavi e o agente Kia Joorabchian intermediaram a transacção em representação do clube italiano. 

Artigo publicado hoje pelo jornal Expresso. De seguida acrescento alguma informação relevante. 

Os valores falados na altura



Segundo o jornal Abola do dia da chegada o jogador teria custado 2,2 Milhões de Euros. 

Jovic e Saponjic custaram cerca de 10 Milhões de Euros



No prospecto de obrigacionista do Benfica, publicado em Abril (link), os encarnados confirmaram que gastaram cerca de 10 Milhões de Euros no mercado de Janeiro de 2015 para a aquisição de dois avançados sérvios. Luka Jovic, no valor de 6,583 Milhões de Euros e Ivan Saponjic no valor de 3 Milhões de Euros. Nem um, nem outro estão a acrescentar nada na equipa B do Benfica. Jovic tem 16 jogos/1 golo) pela equipa B do Benfica e Saponjic tem 33 jogos/6 golos pela equipa secundária. 

Uma curiosidade



No mesmo dia em que Carrillo é colocado no Sporting pelo jornal Abola, Luka Jovic chega a Lisboa. Curiosamente, o Sr. Pini Zahavi detinha 45% do passe do peruano. Mais uma daquela coincidências. 


Um resumo perfeito


- A 25 de Janeiro de 2015, o Estrela Vermelha vendeu 70% dos direitos de Luka Jovic ao Apollon por 1,4 milhões de euros. Além disso, o Apollon garante uma clausula que lhe garante os restantes 30% por 600 mil euros. Mas o jogador ficou em Belgrado. Nunca jogou pelo Apollon. E a 1 de Fevereiro de 2016 assina pelo Benfica.

- O Estrela Vermelha recebeu no máximo 2 milhões de euros por um jogador que veio directamente de Belgrado para Lisboa e o Apollon, sem que o jogador lá tenha colocado os pés, recebeu 4,65 milhões de euros pelo jogador.

- Zvezdan Terzic, foi o responsável por este "maravilhoso" negócio para o clube Sérvio. Este senhor esteve fugido à justiça 2 anos por acusações de desfalque, tendo-se entregue em 2010 e pago mais tarde uma caução de 1 milhão de euros para regressar "ao activo".

- Entretanto, a irmã deste senhor é casada com um antigo guarda redes chamado Nikola Damjanac que foi contratado pelo Benfica para representar o clube nas negociações com Jovic. Por isso recebeu 100 mil euros do Benfica.

- Curiosamente, Damjanac é co-proprietário da Lian Sports que entre outros representa: Djuricic, o irmão de Filip Markovic (irmão de Lazar Markovic) e Fejsa. 

- Pini Zahavi, detinha 45% do passe de André Carrillo. No mesmo dia em que a notícia da contratação de Carrillo pelo Benfica, Jovic chega a Lisboa para assinar pelo Benfica.

Caso para dizer: Limpinho, limpinho, limpinho...

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2 comentários:

  1. Estava a ler o texto e a tentar perceber a razão porque o Vieira enterrou tantos milhões do clube quando surge o já habitual parágrafo que nos diz haver um estádio e construir até 2019.

    Está assim explicado o investimento para proveito do Vieira e amigos e respectivas empresas de construção.

    Sai mais uma rodada de gelados na testa para os lampiões...

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  2. Os dois sérvios foram para o Venfique a preços brutis lara pagar o favor Carrillo. Pelo menos um foi contrariado, mas como têm medo de sofrerem represálias, não falan.

    Não sabia que o Zahavi estava metido na transferência do João Mário para o Inter, mas... explica muita coisa da novela que foi. :) E a do Adrien e Leicester também tem muito que contar... Quanto a esses clubes, que se afundem. Até agora tem corrido bem, Leicester quase a descer de divisão e Inter longe das competições europeias. Nao tenho pena. Os jogadores que olhem para essa merda e pensem duas vezes antes de ouvir o diabo que lhes segreda ao ouvido.

    Quanto ao comentário acima, o estádio do Limassol ter obras é irrelevante neste caso. O Venfique é arraia miúda no catálogo do Zahavi. Não tem conexão.

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