Parece mentira, mas a realidade é que chegamos a Abril sem qualquer informação por parte do conselho directivo sobre a reestruturação financeira que permitiria ao clube colocar uma pedra sobre esta matéria. Relembrar que ontem terminou o "waiver" concedido pela banca ao Sporting e os sócios continuam no escuro sobre todo este processo. Para quem não está familiarizado com este termo técnico, explicar que um "waiver" é uma renúncia temporária ao pagamento de determinadas obrigações do clube perante a banca. E este é já o segundo "waiver" que esta direcção teve, depois do primeiro ter findado a 31 de Dezembro de 2018.
Portanto, de forma muito resumida e sendo absolutamente factual, estamos perante um conselho directivo que:
1) falhou estrondosamente o empréstimo obrigacionista de 30M (deveria ir aos 60M) ficando apenas nos 26M, tornando o Sporting no primeiro clube português a ter uma procura inferior à oferta das suas obrigações.
2) falhado o Empréstimo obrigacionista, o conselho directivo virou-se para a antecipação de receitas do contrato de direitos televisivos. A tal "ferramenta de último recurso" - como afirmou Francisco Salgado Zenha há uns meses atrás - foi utilizada sem que fosse explicado o plano financeiro que esta direcção tem para o clube e sem informar os sócios e accionistas sobre o parceiro escolhido e a taxa de juro.
3) no meio de tudo isto, a divulgação do habitual relatório e contas consolidado de todo o grupo Sporting continua escondida dos sócios, quando deveria ter sido divulgada no passado mês de Janeiro em sede de assembleia geral e publicada no site do clube. Um relatório e contas que é fundamental para que os sócios do Sporting tenham conhecimento da real situação em que a direcção de Bruno de Carvalho deixou o clube. Por que será que não querem que os sócios tenham acesso a esta informação? Na mesma situação está o relatório de sustentabilidade.
4) Finalmente, estamos também perante um conselho directivo que continua sem fechar a reestruturação financeira que já tinha sido alinhavada pela direcção de Bruno de Carvalho há precisamente um ano, como até é reconhecido em recentes comunicação do Sporting à CMVM.
Portanto, já passou um ano da negociação relativa à reestruturação financeira negociada pela direcção de Bruno de Carvalho e ainda não há fumo branco. Mais relevante ainda é que Março 2019 (prazo limite do segundo "waiver") já lá foi e os sócios continuam sem saber nada sobre o acordo de reestruturação financeira.
Para fechar o post, parece-me extremamente relevante trazer aqui um artigo que Carlos Vieira, antigo vice-presidente do Sporting, publicou na passada sexta-feira na plataforma
Link To Leaders.
O artigo de Carlos Vieira
Leio na comunicação social sobre o facto de certos credores terem conseguido o controlo acionista da Auto Estradas Douro Litoral e da Brisal, pertencentes à Brisa, após terem adquirido, a desconto (ou com o já famoso “haircut”, fala-se em 80%), créditos que lhe permitiram fazer o “step in” no capital da empresa. E adquiriram-no associando-se a empresas tão seletas como o Deutsche Bank, o JP Morgan e o Banco Europeu de Investimento (Público, 24/01/2019).
Importa recordar também que a própria Brisa já tinha colocado o Estado português em tribunal, por razões de reequilíbrio financeiro, tendo este sido condenado a pagar 220 milhões. É obra!
Este tema permite-me dizer que, de facto, num negócio ou num investimento que, por determinadas razões não corre como o esperado, pode sempre existir um conjunto mínimo de ativos que conduzem ou autorizam um ajustamento. Por vezes este ajustamento obriga a que credores que, por norma, não trabalham em situações de stress financeiro, cedam as suas posições a terceiros, sejam eles considerados “abutres” ou não. E aqui o digo. Hoje que se discute a necessidade de se recuperar a competitividade de determinadas regiões do país, não seria porventura interessante o Estado português adquirir esta posição destes fundos, remetendo estes ativos para os respetivos municípios para gestão (promovendo a redução dos custos de contexto de quem aí vive e trabalha)? Há de facto uma oportunidade única nestes momentos originados por crises globais ou específicas que importa manter no radar.
O mesmo se pode dizer do Sporting Clube de Portugal e do seu Grupo. Na semana passada assisti ao anúncio de um financiamento que serviria para pagar créditos vencidos, na SAD. Neste artigo, em que escrevo como docente do ISG, e para não me acusarem de revelar informação confidencial, reporto-me aos recentes relatórios de gestão, prospetos divulgados e ao artigo de Bruno de Carvalho (DN, 30/04/2018) e à entrevista de Carlos Vieira (o VP do SCP, que sou eu, mas agora não sou, também no DN, mas de 22/06/2018), para lamentar que não se tenham conseguido concretizar os acordos que permitiriam uma reestruturação (já estou tão farto desta palavra!) efetiva.
Para não me alongar muito, a base desse acordo era i) situar a operação de titularização de créditos na Sporting SGPS (que é detida a 100% pelo Clube), que iria comprar os créditos detidos pelo BCP e Novo Banco sobre a SAD e o Clube (cerca de € 150M de empréstimos e € 135M de VMOCs – obrigações convertíveis em ações) por um valor de, no máximo, € 150M; ii) a SAD e o Clube ficariam a dever os seus créditos à SGPS pois um haircut direto dos bancos aquelas originaria muito possivelmente IRC a pagar; iii) como a SGPS deve ao Clube cerca de € 70M, acertavam-se as contas e o Clube, sem mais, ficava sem dívida bancária e “arrumadinha” beneficiando os seus mais de 170 mil sócios; iv) a SGPS ficaria com € 135M de VMOCs adquiridas a um baixo valor que, se interessasse ao Sporting, poderia transformar em ações ou vender com ganhos a parceiros a sério; v) todas as restantes garantias prestadas aos bancos ficariam libertas. Note-se que, a SAD não pode adquirir ações ou VMOCs próprias e não pode emprestar dinheiro a terceiros com o objetivo único de as comprar (a designada “simulação”).
Assim, a exemplo da Brisa, ou do Estado português, parece que se pode vir a perder uma oportunidade. Daquelas que passam poucas, ou nenhumas vezes. O que me ainda me mantém esperançoso é que quem nos governa se mantenha alerta. No caso do Estado, vêm aí eleições…. No caso do Sporting, no comunicado à CMVM está escrito que a “Sporting SAD [pode]recuperar a titularidade ou benefício económico dos créditos”. Ainda estamos em tempo. No entanto deixo a minha dúvida. Sendo quem gere agora estes processos um homem da banca (e que a ela necessariamente regressará) porque não manteve os contratos com quem negociava “agressivamente”, à “abutre” (mas do lado certo da barricada)? Porque será que rescindiram esses contratos? Porque será? Desta vez não será certamente do guaraná.
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