Com a divulgação do relatório e contas da Sporting SAD relativo ao 1º trimestre de 19/20, os Sportinguistas foram presenteados com verdadeiras pérolas de gestão por parte da direcção de Frederico Varandas. Para hoje, trago-vos uma dessas "pérolas" relacionada com o jogador Thierry Correia. Vamos por partes:
O primeiro contrato profissional assinado em 2016
A 25 de junho de 2016, a direcção presidida por Bruno de Carvalho assinou com Thierry Correia o primeiro contrato como "profissional". O atleta até então tinha contrato de formação desportiva, conforme se pode ler no ReC anual de 15/16.
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| Link do comunicado Site Sporting (aqui) |
Como se pode verificar, o atleta renovou contrato "por um período que poderá estender-se até junho de 2022, ficando com uma cláusula de rescisão no valor de 45 milhões de euros". Quando se diz que "poderá estender-se até 2022", significa que o contrato tem um validade fixa e existe a possibilidade de o clube accionar o direito de opção por mais tempo, até 2022, como é dito no comunicado do Sporting. Não há informação pormenorizada sobre esta questão, mas tendo em conta o tipo de contrato feito pela anterior administração, parece-me muito provável estarmos perante um contrato de 5 épocas (até 2021) + uma época de opção (2022).
Mas para o caso até é indiferente se eram 4+2 ou 5+1. A realidade é que o Sporting tinha o jogador blindado até 2022 com uma cláusula de rescisão de 45 milhões de euros.
A "renovação" feita pela administração de Frederico Varandas
A direcção de Frederico Varandas tomou posse a 9 de setembro de 2018 e a 20 de setembro, apenas 11 dias depois da tomada de posse, anunciaram a renovação de contrato com Thierry Correia. Uma renovação feita em tempo recorde e que foi publicada no site do Sporting desta forma:
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| Comunicado Sporting no site (aqui) |
Como se pode ver, o Sporting diz apenas que o atleta "prolongou o vinculo até 2022". Ou seja, na prática a duração do contrato ficou absolutamente na mesma, uma vez que com o contrato assinado em 2016 o Sporting já tinha a prerrogativa de accionar a opção até essa mesma data.
Relativamente à cláusula de rescisão, o Sporting não divulgou o seu valor neste comunicado nem nos relatórios e contas apresentados dai em diante. Na altura desta renovação, o único jornal desportivo a avançar com o valor da cláusula de rescisão foi o Jornal Ojogo.
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| Jornal Ojogo 21 de Setembro de 2018 |
Esta notícia da manutenção dos 45M da cláusula de rescisão foi posteriormente confirmada por mais órgãos de comunicação social na altura em que o atleta foi vendido ao Valência por exemplo (
aqui ou
aqui). Portanto, Frederico Varandas acordou novo contrato com o jogador mantendo a duração e cláusula de rescisão.
2 milhões de comissões e os comissionistas
Passo agora dos contratos para a transferência para o Valência. Ora, na publicação do quadro resumo com os valores envolvidos nas transferências do mercado de verão - que deveria ter sido publicada no início de Setembro e só saiu em finais de outubro - os Sportinguistas ficaram a saber que dos 12 milhões de euros envolvidos na transferência de Thierry Correia, 2M foram directos para comissões.
Como se pode ver nessa comunicação oficial do Sporting à CMVM, neste caso estamos perante uma comissão repartida por dois agentes.
Uma vez que o Sporting não revelou quanto caberia a cada um destes agentes, resta-me tentar "adivinhar". Ora, acreditando que Jorge Mendes cobra os mesmos 10% ao Sporting que cobra ao Benfica, facilmente chegamos à conclusão que é muito provável que neste negócio tenha facturado ao Sporting 1,2M de euros (tais 10% do bolo total), enquanto que Pedro Torrão terá ficado com os restantes 800 mil euros deste montante total de 2 milhões de euros em comissões.
Parti em busca de alguma informação sobre esta matéria em órgãos de comunicação em Espanha e encontrei uma entrevista muito interessante da Rádio Cadena Ser a Pedro Torrão, empresário do jogador.
De seguida deixo o audio da entrevista para que não restem dúvidas.
É sintomático que nenhum órgão de comunicação social em Portugal tenha pegado nesta matéria para tentar esclarecer os Sportinguistas e os adeptos de futebol em geral. Isto quando quem pagou as comissões milionárias foi um clube português. Mas enfim, é o que temos. Os nossos órgãos de comunicação social preferem ser veículos de encomendas enviadas pelos departamentos de comunicação dos clubes, do que fazer jornalismo. Mas essa é já uma história muito antiga. Este é apenas e só mais um exemplo. Mas vamos ao que interessa.
Reparem só na excelência e pertinência das perguntas do jornalista espanhol ao empresário do jogador:
- "Não entendemos porque é que Jorge Mendes cobrou ao Sporting se o empresário do jogador és tu?"
- "Eu pensava que o Valência ligava directamente ao Sporting e que não precisava de Jorge Mendes para comprar o jogador"
- "É um milhão para o Jorge e um milhão para ti?"
- "Não te parece muito dinheiro por um jogador que fez apenas 4 jogos pela primeira equipa do Sporting?"
- "Porque é que o Valência tem de contratar Jorge Mendes para comprar o jogador?"
Como se percebe, o jornalista espanhol "apertou" com Pedro Torrão para obter respostas. O empresário de Thierry Correia bem se tentou esquivar das questões, mas lá se saiu com um "é normal que Jorge Mendes cobre comissão porque foi ele que levou ao Sporting a proposta do Valência pelo jogador".
Perante isto, vamos lá ver se nos entendemos. Se Jorge Mendes serviu de intermediário do Valência, porque raio é que o Sporting tem de pagar esse serviço ao agente? Se o interesse partiu do Valência, são eles que têm de pagar pela intermediação do negócio e não o Sporting. Precisamente como o Sporting de Frederico Varandas tem feito em todas as compras definitivas de jogadores. E não me interpretem mal, eu até concedo que se paguem comissões nas vendas de jogadores, mas têm de ser jogadores pelos quais não temos interesse e que queremos "despachar" no mercado.Não foi claramente o caso, até porque é o agente do jogador que diz com todas as letras que Jorge Mendes foi mandatado pelo Valência. Ora, se assim foi, os espanhóis que paguem a comissão que quiseram ao Jorge Mendes. Era isto que os Sportinguistas esperavam de uma direcção que defendesse os interesses do Sporting.
Mas ainda mais grave é percebermos que Pedro Torrão embolsou 800 mil euros sem ter tido qualquer intervenção relevante no negócio, uma vez que tudo foi tratado pela Gestifute. Como é que se justifica esta verdadeira "pipa de massa" paga a alguém que não teve intervenção no processo? Não parece ser o caso, mas supondo que por algum motivo existiu um esforço conjunto entre Jorge Mendes e Pedro Torrão na transferência do jogador, não seria justo que a comissão dos 10% fosse dividida entre ambos? Porque raio se oferecem 800 mil euros ao Pedro Torrão?
Isto é absolutamente incompreensível é lesa gravemente os interesses do Sporting. Mas o problema é que ainda há mais. Senhoras e senhores apresento-vos o "prémio de saída".
Meio milhão de euros de "prémio de saída"
Eis não foi o meu espanto quando me apercebo que no Relatório e Contas relativo ao primeiro trimestre de 19/20 é referido o seguinte:
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| Página 24 ReC Sporting SAD 1º Trimestre 19/20 |
Como podem verificar, o relatório e contas confirma a informação relativa aos 2M de euros pagos de comissão a Jorge Mendes e Pedro Torrão, mas dá-nos mais do que isso. Pela primeira vez os adeptos leoninos ficaram a conhecer um mecanismo designado por esta administração por "prémio de saída".
A designação em si é em si mesma um insulto e um enxovalho ao Sporting Clube de Portugal. Prémio de saída? A sério? Esta direcção acha que deve atribuir um prémio quando os jogadores saem do Sporting. E no caso não foi um prémio qualquer. Falamos de um valor superior a meio milhão de euros. Alguém acha isto normal?
Resumindo e concluindo
Frederico Varandas chegou ao Sporting e Thierry Correia estava blindado por um contrato até 2022 e uma cláusula de rescisão de 45 Milhões de euros. Por essa altura o atleta não tinha realizado uma única partida na equipa principal, apesar de ser apontado como um jogador que no futuro poderia jogar pela equipa principal. Vá-se lá saber porquê, Frederico Varandas andou com o dossier da renovação em tempo recorde e em apenas 11 dias após ter tomado posse, o novo contrato foi anunciado. Um novo acordo em que o atleta manteve a duração do contrato e a cláusula de rescisão, mas incompreensivelmente foi acordada uma cláusula designada por "prémio de saída", que ficamos agora a saber custou 514 mil euros aos cofres do Sporting.
Ora, um jogador que estava completamente blindado, que não tinha feito um único jogo na equipa principal passou a ter um "prémio de saída" de mais de meio milhão de euros mantendo a cláusula e duração do contrato. Mas isto faz sentido na cabeça de algum Sportinguista? O que o jogador ganhou com este novo contrato todos nós agora conseguimos perceber. Meio milhão de euros, coisa pouca. O que ninguém consegue perceber é o que o Sporting ganhou com isto, uma vez que nem sequer houve a capacidade de aumentar a duração do contrato ou da cláusula de rescisão.
O jogador partiu então para Valência e como se já não fosse suficientemente mau termos de dar mais de meio milhão de euros ao jogador, ainda fomos oferecer 1,2 Milhões de euros a Jorge Mendes, que veio mandatado pelo Valência e 800 mil euros ao Pedro Torrão, empresário do jogador, que não teve qualquer intervenção no processo. No final do dia, dos 12 Milhões de euros do negócio, entraram apenas nos cofres do Sporting 9,486 Milhões de euros. Praticamente 21% do montante total da transferência foi para o "galheiro". E depois venham dizer que não há dinheiro...
Termino com uma pergunta aos Sportinguistas. É este o tipo de gestão que querem ver no Sporting?
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