terça-feira, 12 de julho de 2016

Ruipatrícismo



Daqui a alguns anos, talvez décadas, quando um bebé actual começar a aproximar-se do futebol e se interessar pelo o que aconteceu naquele verão distante de 2016, a primeira coisa que ele vai encontrar no Google será a foto de um punhado eufórico de jogadores portugueses no palco de Saint-Denis. A partir daí, se ele quiser, pode tentar tirar as suas próprias conclusões de um jogo que teve tanto de absurdo como de maravilhoso. Quem terá sido o melhor marcador? Quem terá sido a figura da final? Será que algum jogador foi expulso nos últimos minutos?

Por vezes, custa-me a perceber o porque de fazemos tanto esforço para explicar o que já aconteceu, quando um conjunto de  fotografias nos poderia poupar gestos e saliva, os quais poderíamos investir em contar o que vai acontecer ou o que não aconteceu de forma mais interessante. Mas visualizando apenas fotografias, podemos não perceber muitos tipos de cansaço, como o emocional.

Mas voltemos à foto de um Portugal triunfante. Através dela podemos tirar várias ilações, que por mais que não tenhamos visto o jogo da final, não têm que ficar longe da realidade. No centro, aparece Cristiano Ronaldo com o troféu na mão, com uma veia saliente no pescoço do tamanho de uma chaminé de uma fábrica de produtos químicos e uma ligadura que cobre todo o joelho esquerdo. Terá sido em Waterloo? Terá sido no Vietname? O que é certo é que esse rapaz terá deixado para trás um lugar feio e hostil e recuperou para estar no meio da "manada" a proclamar a sua liberdade. Poucos metros à direita, também chama a atenção o rosto de João Mário, cuja felicidade se manifesta em várias rugas que atingem as pálpebras. Se continuarmos nessa direcção e arrastarmos os olhos para o canto, vimos a figura de Éder, longe de se preocupar com sua pose para a selfie e com um sorriso, consciente da sua singularidade. "Olha, mãe, sou eu. Sou eu e decidi o jogo, caralho. Sou mesmo eu e decidi."

E assim com todos. Bruno Alves, Quaresma, Pepe, Moutinho, André Gomes. Jogadores de Fernando Santos que ficaram "congelados" pelos flashes no momento certo, e suas aparências e gestos contêm histórias que com um pouco de esforço qualquer um poderia adivinhar. O desfile de rostos, no entanto, é incompleto. Essa nuance até poderia ser irrelevante. Até poderia não ter a maior importância. Até poderia ser uma absurda trivialidade. Mas é Rui Patrício que não está na foto. E isso, num resumo de um jogo épico é uma ofensa grave, uma atrocidade.

Demasiado escondido numa das pontas da equipa campeã, o guarda-redes titular de Portugal não entrou na maioria do enquadramento dos fotógrafos presentes para imortalizar o momento de levantar a taça, deixando um buraco irreparável na sua captura.

Com essa decisão de ficar de lado para dar destaque ao resto dos colegas, de ficar à margem da celebração, o guarda-redes apresentou-se à sociedade. Assistimos a um baptismo de um herói diferente. Em definitivo, o "Ruipatrícismo". Uma corrente filosófica que nos marca a partir de hoje cada vez que alguém nos perguntar: "O que aconteceu naquele verão distante de 2016?". Em primeiro lugar terá de exibir a imagem. E, em seguida, falar sobre Rui Patrício. Pelo menos durante meia hora.

Adaptação de um texto de Marcel Beltran no site Panenka. (link do artigo original)

As imagens que ilustram o momento podem ser vistas de seguida:



Agradecer a todos pelo apoio. Se ainda não seguem o Mister do Café nas redes sociais, podem começar já. 
 
 
Link do Facebook: (cliquem)
Link do Twitter: (cliquem)

7 comentários:

  1. O artigo original esta' estrondoso...principalmente por ser escrito por um Espanhol...em Castelhano...e' bom ver o nosso menino que se tornou homem a ser reconhecido la' fora...enquanto ai em Portugal, so' por nos Sportinguistas. Haja quem!
    SL

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. De facto, não há comparação possível entre os jornais internacionais e os nossos. Cá no burgo estão todos preocupados em saber onde é que o Renato corta o cabelo...

      Eliminar
  2. Flashes sobre a entrega do Caneco aos "Aurélios"

    - Forma diferenciada como Figo cumprimenta os jogadores do Sporting
    https://rutube.ru/video/100cd7da80ceef13aa2d2fb0385b2715/

    - Forma apressada como Figo guarda a medalha de ouro no bolso depois de alguém da uefa a ter oferecido
    https://rutube.ru/video/cb75609c97cb058f8aab01262952adba/

    - Por fim, a apoteose final depois da entrega do caneco, quando os "Aurélios" cantam: "E esta merda é toda nossa, Olé!"
    https://rutube.ru/video/5a0973f82c371f5993f4c0e65273386d/

    ResponderEliminar
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  4. Quando vejo encher a boca para falarem de clubite pergunto me se há caso mais grave e perverso do que a clubite relapsa e que ocorre por omissão.
    Fosse o Rui Patricio de outro clube e não se calariam com ele. Por isto e por tantas outras coisas é que esta vitória traz sentimentos diversos e muitas pessoas celebram por motivos também eles diversos. Se é certo que é uma grande alegria também é certo que ela é bem representativa de muitos aspectos da mediocridade nacional.

    ResponderEliminar
  5. Classic Rui.

    Rui Patrício escolher ser centro das atenções? Declarem feriado nacional e desfrutem do momento raro. Mas é interessante que o Guerreiro também é assim, ficou por lá com o Rui.

    Já o Renascido andou a mudar de lugar uma data de vezes. Mesmo à lampião, attention whore. E mais uns que não vale a pena referir.

    Grande Rui Patrício. És grande.

    ResponderEliminar
  6. http://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT82135

    Tudo assinar

    ResponderEliminar